logo

REVIEW – Gotham: 1×01 – Pilot

Uma série presa à sombra do Batman.

GOTH_Publicity_003_V7_RR_FF

A última coisa que esperava da estreia Gotham é que fosse genérica. Infelizmente este piloto expressou bem esse lado da série, com confusão no elenco e excesso de personagens sem profundidade, algo comum a um piloto, mas que poderia ter sido deixado de lado com um pouco mais de habilidade. Não restam dúvidas de que a sombra do Batman é longa aqui, principalmente por ser o personagem mais rentável da DC em sua história de adaptações para TV e Cinema e, por isso, ver que esta sombra toma conta de todo o episódio, mesmo sem existir de fato, é um pouco desanimador.

A sombra, entretanto, eventualmente deverá ganhar uma cor menos sólida e, passados os episódios iniciais, se tornar cada vez mais fraca até ser apenas uma esperança. Infelizmente não consigo superar esse medo com Gotham porque tudo o que torna a série interessante é do universo do morcego. E é impossível não se lembrar do Batman em uma série que não deveria ser dele, mas do Jim Gordon.

Na cena final em que Jim deixa seu futuro nas mãos de um garoto de 12 anos, este que rapidamente assume a posição de superioridade, olhando de cima, mandando no mordomo, a série deixa bem clara sua intenção. O alvo aqui é pavimentar o caminho para um personagem que nunca fará parte do mundo criado para ele. Fica difícil não fazer uma conexão superficial com Smallville que, apesar de ser a série de origem do Clark Kent, criou tensão para revelar o Superman e, por não ser esse seu objetivo, nunca vimos mais do que cinco segundos do escoteiro em seu uniforme.

Gotham não é ou não deveria ser a série do Batman. Entretanto, como não pensar que Fish Mooney, personagem criada exclusivamente para a série, é uma introdução falha a um personagem que pode não receber tratamento adequado na TV? Esse é o meu único problema com a série, que soube manter a qualidade para seu episódio piloto e mostrar que o essencial para o momento é a apresentação dos personagens. Há, talvez, um pecado por excesso de tramas nesse primeiro momento, mas de forma alguma isso prejudicou o andamento dos 40 minutos iniciais.

Para mim, Gotham não seria uma série do Batman se o assassinato de Martha e Bruce Wayne ocorresse apenas na season finale, mas, se isso acontecesse, não existiria apelo em cima dos fãs da franquia do Morcego, bastante promissora em outras plataformas.

E por falar nestas outras plataformas, é interessante ver como Gotham presta homenagem a todas as produções do morcego, com exceção da famigerada obra de Joel Schumacher, o surtado e exagerado Batman & Robin (que também tinha como missão ser uma versão moderna da série clássica de 60). Exemplo disso é Fish Mooney, uma versão caricata e cartunesca de Eartha Kitt, a Mulher-Gato da série clássica do Morcego.

É fácil também encontrar similaridades com a trilogia Nolan e em alguns pontos colocar a Gotham da série bem próxima da imaginada por Tim Burton. Ou seja, a série é uma amalgama de todas as produções do Batman, salientando a distância enorme que a sombra do personagem lança sobre a produção.

Em um contexto onde os caras maus se destacam, é a vilã que rouba a cena e dá um ar renovado para tudo o que estava sendo exibido. Não foi Jim Gordon ou seu parceiro, mas Jada Pinkett Smith que, ao revelar seu lado diva mais forte, tomou esse piloto para si. Da mesma forma age o Pinguim, Oswald Cobblepot (Robin Lord Taylor). Não fosse por esses dois personagens, o episódio inicial de Gotham acabaria se transformando em algo completamente diferente e, temo, menos interessante.

A realidade é que os vilões sempre são o brilho da série. Em um universo saído das HQs é mandatório que a leva de bad guys seja bem mais interessante que os mocinhos. Caricatos, maldosos, cheios de petulância ou humor, não importa. São os vilões que devem ditar as regras e os mocinhos que de alguma maneira tentarão quebrá-las ou, no caso da polícia de Gotham, se adaptar a elas.

Logo, quando colocamos em xeque a utilidade dos vilões, eles se sobressaem a Jim ou seu parceiro dúbio. Edward Nigma foi um dos que menos apareceu, mas o que mais me interessou. Apesar de não gostar de Batman Eternamente, o Charada interpretado por Jim Carey foi o ponto alto do filme, uma personalidade que casa perfeitamente com a imagem criada nos quadrinhos. Na série não é diferente e o próprio ator tem um ar bem semelhante ao esperado. Meus parabéns a Cory Michael Smith.

Selina-Kyle-Gotham-TV

Falando agora do núcleo infantil, fiquei bem feliz com Bruce e Selina (Mulher Diva Gato), mas achei a introdução da Pamela Isley (Hera Venenosa) desnecessária ao extremo. A tentativa de conectar todos os vilões futuros do Batman à cidade de Gotham ficou forçada demais e nesse aspecto acredito que o menos é sempre mais. Porém, apesar de não ter falado nada, Selina roubou a cena e arrasou, assim como o menino Bruce. A série ganha mais alguns pontos ao adaptar o assassinato dos Wayne inserindo a futura Mulher Gato no contexto.

Sobre Alfred, fiquei extremamente feliz com a abordagem lançada. Um Alfred mais próximo de um ex-fuzileiro, do que de um mordomo, encaixa melhor com a criação que o futuro Batman deveria receber para se tornar um sociopata. E convenhamos, tenho um pouco de medo desse ‘mordomo’ que, apesar de inspirar segurança, também age como um pai severo, algo que Bruce precisará depois desse momento tão traumático.

Gotham é corrupta. Gotham é uma cidade perdida. Falcone, a policia, o prefeito… ninguém é confiável. E sabe qual é o grande problema disso? Ela não pode melhorar nunca, já que sua corrupção e decadência são os motivadores para que Bruce permaneça como Batman. Isso e o fato dele precisar encontrar o assassino de seus pais. O crime pode ser resolvido na série e o senso de vingança do garoto Wayne permanecer após a prisão do culpado, mas a cidade não poderá ser limpa nunca.

Portanto, estamos não apenas encarando uma série à sombra do Batman, mas uma produção que não poderá evoluir mais do que seu futuro vigilante. Ao apresentar um piloto mediano, Gotham lança um desafio a si própria: ela não poderá se tornar um enxerto do Morcego na televisão e precisará urgentemente encontrar seu tom e identidade, tudo isso antes que seja devorada pelo mercado.

Easter eggs

  • O suposto assassino dos Wayne mora na rua 4th & Grundy, referência clara ao vilão Solomon Grundy.
  • O Prefeito Aubrey James é saído dos quadrinhos, aparecendo inicialmente em “Legends of the Dark Knight”.
  • Sarah Essen, a capitã que irá dar trabalho para os corruptos de Gotham, também saiu dos quadrinhos. Sua participação foi introduzida em “Batman: Year One”, onde também é bissexual.
  • O apartamento do Jim e da Barbara se parece muito com a torre do Oráculo, presente nas histórias das Aves de Rapina. Nos quadrinhos o personagem é Barbara Gordon, filha do casal, mais conhecida como Batgirl.
  • Passaremos por vários possíveis Coringas durante a série, mas não temos certeza se ele será introduzido. O comediante desse episódio foi apenas o primeiro.

 

Gostou desse texto? Clique aqui e saiba como apoiar o nosso trabalho.



| Gotham, Review

  • cesarferraz

    Gostei da review, concordo com muita coisa do que foi dito, mas no geral eu saí da sessão com uma impressão positiva e nem tão temeroso assim pelo futuro dda série. Gostei dos personagens, das atuações em geral (em especial do Robin Lord Taylor), e gostei MUITO de Gotham. Achei que encontraram o tom certo pra cidade que essa sim é o personagem principal da série e não o Gordon. Tenho certeza que esse tom virá rápido com os primeiros episódios e com um universo tão rico quanto esse, não tem como dar errado. Também gostei do tom mais adulto da série, menos teen como Arrow e especialmente Flash que está uma série bem teenager. Cruzando os dedos para vir muita coisa boa pela frente!

    • Robin Lord e Jada Pinkett estão roubando a série, mesmo. Valeu pelo comentário!