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ANÁLISE – O que escondem as cortinas políticas do Oscar 2015?

Uma análise do que merece (ou não) destaque no Oscar 2015.

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Se você não tiver muito tempo (ou paciência) para entender/acompanhar os avanços e retrocessos da política americana, fique tranquilo porque a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas fará isso de forma bastante resumida/tendenciosa para você. Isso mesmo, eu não escrevi errado. Se você quiser um breve apanhado sobre quem são os alvos dos Estados Unidos, preste bastante atenção nos indicados anuais do Oscar para ver quem fica sob a alça de mira deles. Não, isso não é papo “contra o imperialismo”. Isso é apenas Hollywood e a fabricação de consenso que ela semeia em quem se permite enlaçar. A cerimônia – que acontece hoje – traz indicados mornos (ainda mais fracos que os do ano passado, o que parecia difícil), filmes que logo a gente vai esquecer e Neil Patrick Harris como o host deste ano. Aliás, a própria escolha do apresentador denota um recadinho discreto da indústria do cinema. Depois de anos e anos com atores cômicos/sarcásticos à frente da cerimônia – Billy Crystal, Steve Martin, Whoopi Goldberg e Chris Rock -, a Academia colocou Ellen DeGeneres diante de seus refletores no ano passado não só em uma tentativa desesperada de garantir audiência (o Oscar perde cada vez mais espectadores a cada ano), mas para reforçar a ideia de que Hollywood é um terrotório moderno, descolado e livre de preconceitos. Lésbica, sagaz e impetuosa, ela – uma das melhores audiências da TV americana com seu “The Ellen DeGeneres Show” – desengessou a premiação com selfies, entregas de pizza e piadas/provocações que, mesmo roteirizadas, indicavam que a Academia é “mente aberta”, feita por todos e para todos. Como a fórmula de 2014, Neil Patrick Harris – gay, sagaz, impetuoso e adorado por seu papel em “How I Met Your Mother” – carrega a função de superar Ellen, manter os níveis de audiência e reiterar (novamente de forma roteirizada e sem que ator tenha qualquer culpa nisso) a ideia de que a Academia é uma mãezona que “gosta de todo mundo”, “não discrima ninguém” e de fato “premia que fez por merecer”. Mas lembram que cinema é política? Pois bem. Voltemos ao mote desta matéria.

Para começarmos por quem sempre acaba ofuscado pelas demais categorias/filmes, falemos sobre “Melhor Animação”, “Melhor Filme Estrangeiro” e “Melhor Documentário”. O desenho mais engenhoso/genial e merecedor de uma estatueta? “Os Boxtrolls”, com (Sir) Ben Kingsley na voz de um vilão macabro, Toni Collette e Isaac Hempstead-Wright (o intérprete de Bran Stark). Na trama, Archibald Snatcher (Kingsley) é um malandro que caça Boxtrolls (monstrinhos adoráveis, que moram nos esgotos e comem insetos) para cair nas boas graças da high society local com a desculpa que os bichinhos são assassinos. Achou interessante? Que bom. Até porque a ideologia do desenho mantém o tom político da cerimônia de 2015, uma vez que os Boxtrolls – na realidade – são uma alusão ao terrorismo e a forma americana de tratar “tal tipo de gente” como quem “vive à margem, se alimentando de restos e tramando contra o mundo para vingar-se”. Parece absurdo e violento para apenas um desenho? Parece. Mas qual seria a graça de fazer um desenho sem nele inserir estigmas que Hollywood se empenha para reforçar, não é mesmo? Assim, “Os Boxtrolls” (feito em stop motion) é o mais adulto entre os indicados a “Melhor Animação” e merece a estatueta. Quem também faz bonito na categoria? “Operação Big Hero”, também com narrativa política escondida sob trilha sonora adolescente (Fall Out Boy manda seu alô na faixa-tema-principal) e estética futurista. O roteiro? Hiro Hamada é um adolescente-gênio que cria os Microbots, mini robôs controlados com sensores de função cerebral. Tudo vai muito bem até que a tecnologia do garoto seja roubada por um super-vilão-mascarado para destruir o mundo como o conhecemos. Sentiu as entrelinhas de “Operação Big Hero” soprarem alguma coisa no seu ouvido? Em caso negativo, vamos lá: os Microbots são a “brincadeirinha” usada para falar sobre qualquer tecnologia ocidental que caia em “mãos erradas” e capazes de “fazer muitas maldades por aí”. Não é mera coincidência qualquer semelhança com os aliados americanos durante a Guerra Fria que, anos depois, tornaram-se “arqui-inimigos” do Tio Sam, ok? Entre os outros indicados da categoria estão “Como Treinar o Seu Dragão 2” (tão lindo quanto o primeiro e com a mesma temática da vilania revanchista de “Big Hero”), “Song of the Sea” e “O Conto da Princesa Kaguya” (igualmente singelos, mas que correm por fora). Quem leva a estatueta? Como a Academia tem premiado animações com estética/roteiros mais regulares, os palpites são “Operação Big Hero” ou “Como Treinar o Seu Dragão 2”.

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Falemos “Melhor Filme Estrangeiro”, isto é, categoria que coloca os roteiros americanos no bolso e faz com que a Academia espume de inveja pelas ideias que não teve. O favorito? “Ida”, filme polonês (em preto e branco) e que narra a invasão nazista a partir da perspectiva de uma noviça. Se “Ida” é glorioso? É. Minimalista, instrospectivo, elegante. Quais os outros candidatos? Vamos lá: “Leviatã” [Rússia], “Tangerines” [Estônia], “Timbuktu” [Mauritânia] e, por fim, “Relatos Selvagens”, representante do cinema argentino e meu favorito. Ao pautar situações extremas/exasperadas, provocadas por tensões/pressões cotidianas que nem sempre digerimos rapidamente, o longa tem <3 Ricardo Darín <3 (indicado e premiado na mesma categoria por “O Segredo dos Seus Olhos”, de 2010) no elenco e Pedro Almodóvar como produtor. E abrindo um parênteses: embora “Leviatã” não seja o melhor filme da categoria, a publicidade em torno do longa é tão grande que aceitá-lo como vencedor antecipado tornou-se quase obrigação entre os críticos (parênteses fechado).

Para falarmos sobre os indicados a “Melhor Documentário, precisamos – primeiramente – esclarecer um ponto importante: ao levarmos em conta que a Academia direciona de maneira bastante hipócrita a maioria dos indicados e vendedores principais, o ganhador da presente categoria representa quase uma mea culpa do Oscar. Uma “olha, vamos premiar esse filme porque o que ele fala é real e, consequentemente, para ficarmos bem na fita com nossos espectadores mais incisivos”. Uma demonstração prática disso? Michael Moore e seu Oscar por “Tiros em Columbine”, de 2002. A Academia (formada por conservadores, majoritariamente) odeia Moore, mas – diante de um documentário que denunciava de forma embasada os absurdos da gestão Bush (e seus respectivos efeitos colaterais), não havia outro procedimento a não ser render uma estatueta dourada ao diretor. Logo, justamente por causa da tal mea culpa, “CitizenFour”, narrativa detalhadíssima sobre Edward Snowden e as denúncias de espionagem da Agência de Segurança Nacional americana [NSA], desponta como um favorito. No entanto,  “O Sal da Terra”, sobre vida e obra de Sebastião Salgado, é um outro favorito a “Melhor Documentário” de 2015 por mostrar Salgado não apenas como um titã do fotojornalismo mundial, mas – acima disso – registrá-lo como o ser humano sensível (e recluso) que direciona as lentes de sua câmera com respeito e reverência inerentes à fotografia. A direção é de Wim Wenders, o mesmo responsável pelos documentários “Buena Vista Social Club” (indicado na mesma categoria na cerimônia de 2000), “Pina” e feitos cinematográficos que não carecem de teorização aqui. Os demais indicados? “A Fotografia Oculta de Vivian Maier” [brilhante fotógrafa de rua cujo acervo com mais de 100 mil fotos só foi descoberto após sua morte], ”Vietnã: Batendo em Retirada”, ”The Reaper”, “White Earth”,“Last Days” e “Virunga”. Quem tem minha torcida? Salgado e Wenders, é claro. Quem merece o prêmio? Todos um pouquinho. Em uma terra que vende ilusões, documentar a realidade desponta como o trabalho dos raros e bravos.

 

A atuação de Ralph Fiennes possui traços que não “cabem” no que o Oscar considera “digno de premiação”.

 

Agora – se você sobreviveu até aqui – vamos aos filmes principais e comecemos pelo mais singelo: “O Grande Hotel Budapeste”. Concorrente em 9 categorias (filme, diretor, roteiro original, fotografia, edição, design de produção, figurino, maquiagem e trilha sonora), o longa representa o ápice da criatividade de Wes Anderson. Ao narrar a mitologia do hotel europeu que intitula o filme, o diretor propõe uma deliciosa aventura com edição e montagem irretocáveis e, mais ainda, em consonância com a estética mais poética do cinema atual. O detalhe que a Academia subestimou? A atuação de Ralph Fiennes, é claro. Cômico e leve – traços que não “cabem” no que o Oscar considera “digno de premiação”, o ator dá vida a Gustave H, concierge e alma do Budapeste. Se Wes Anderson está muito preocupado com o “lapso” dos jurados? Não, uma vez que o padrão de qualidade dos longas está no que diverte o próprio diretor. Logo, se ele gostou e riu enquanto filmava/assistia “O Grande Hotel Budapeste”, quem se importa com a aprovação dos outros? Quem ainda não sabe o que tal suavidade significa? David Fincher, ora. Ele mesmo. O diretor de “Garota Exemplar”.

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Em um thriller sem furos, redondinho e de fazer você roer as unhas do pé, o diretor rege a história de Amy Dunne [Rosamund Pike], uma sociopata que – ao descobrir-se traída por Nick Dunne [Ben Affleck], marido prestes a pedir o divórcio – finge o próprio desaparecimento/morte para foder com a vida do infeliz. Se o filme é impecável? É, definitivamente. Indicada a “Melhor Atriz” (única categoria em que o longa concorre), Rosamund Pike leva adiante uma atuação diabólica e sem medo de errar. Qual o problema com o longa se ele é sucesso de público e crítica? Fincher. Odiado pela Academia (sem que esta guarde segredo sobre tal asco, aliás), o diretor tem no ego faraônico seu maior inimigo. Isso mesmo. David sempre tem certeza do acerto e a presunção de que suas produções são mais geniais/paradigmáticas que as demais. Se ele continua sendo um excelente cineasta a despeito de sua soberba? Continua. Se ele é um injustiçado do Oscar 2015? Ele não, mas sua equipe sim, especialmente Trent Reznor – frontman do Nine Inch Nails – idealizador das principais trilhas sonoras de Fincher e, não obstante, criador das faixas agonísticas presentes em “Garota Exemplar”. Quem (ao contrário de David) está muito bem na fita? Bennet Miller e o seu “Foxcatcher”.

Do tipo que curte “histórias baseadas em fatos reais”, o diretor – também responsável por “Capote” e “Moneyball”, ambos premiados/indicados em outras edições do Oscar – tinha em mãos a tarefas delicadas de 1) colocar Steve Carell na pele de seu primeiro vilão e fazê-lo parecer convincente; 2) fazer com que Carell fosse caracterizado à imagem e semelhança de John E. du Pont, seu personagem macabro; 3) tornar crível a atuação de Channing Tatum, aquele moço que sempre aparece peladão/meio-pelado/dançando-quase-nu/dando-porrada-em-filmes-de-ação; 4) permitir que, em meio a todos esses detalhes, Mark Ruffalo fosse um coadjuvante devidamente notado. A trama de “Foxcatcher”? Du Pont [Carell], um multimilionário-sociopata, é dono de um time de luta e vislumbra nos irmãos/medalhistas olímpicos Mark e Dave Schultz [Channing e Mark, respectivamente] a chance de formar uma equipe invencível. É claro que a história acaba em tragédia, mas deixo esse desfecho para imaginação de quem ainda não viu o filme. Concorrente em 6 categorias (filme, diretor, ator [Carell], ator coadjuvante [Ruffalo], roteiro original e maquiagem), o longa não é favorito em nenhuma delas por um motivo bem simples: as produções de Bennet Miller contam com boas atuações, mas são meramente medianas. Daquelas que, caso não indicadas, queimam o filme da Academia. A única exceção é a atuação de Philip Seymour Hoffman, magnífico na pele de (Truman) Capote no filme homônimo e sem muitos detalhes biográficos que empobreceram o roteiro. Se Miller deu conta do recado fazendo um filme meramente mediano? Conseguiu. “Foxcatcher” é  redondinho e com um Steve Carell surpreendente. Mesquinho, mimado, junkie, cínico, cretino. Tudo que a gente não imagine Carell vivendo em cena. Mark Ruffalo não empolga, mas também se sai bem em cena. E sobre Channing Tatum… bem, fica a torcida que ele continue dançando peladão porque, né, pelo menos nos paranauês sensuais/rebolativos da vida hollywoodiana ele se garante. Ah, e já que mencionamos música/movimento, saltemos para “Whiplash”.

 

Whiplash condensa a narrativa do herói assediado moralmente, mas “recompensado por seus esforços” .

 

Feito na raça, sem dinheiro, com sangue, suor e lágrimas. Essa é a melhor descrição – sem metáforas – para  descrever o longa dirigido por Damien Chazelle, estreante que nem dinheiro tinha para concluir o filme indicado agora  em 5 categorias (filme, ator coadjuvante, roteiro adaptado, edição e mixagem de som). A história de “Whiplash”? Terence Fletcher [J. K. Simmons] é professor-semideus-regente de música em busca de um pupilo que supere suas expectativas. Seu método? O bullying mais torpe, nojento e ultrajante adotado por alguém que, em tese, deveria ser referência moral para seus alunos. A pedra no sapato de Fletcher? Andrew Neiman, um estudante/baterista que sangra, transpira e chora, mas espanta o mestre com as batidas que ele esperou escutar de um aluno durante a vida inteira. A moral da história? A narrativa do herói assediado moralmente, mas “recompensado por seus esforços” (tônica bastante comum no american-way-of-life que legitima condutas abusivas durante a realização de sonhos). Se é a glamourização do abuso é absurda? É, sempre. Mas baixem suas defesas porque Damien Chazelle estava apenas (e tão somente) retratando seu próprio esforço persistente ao criar o duelo entre Neiman e Fletcher. Em qual categoria “Whiplash” é favorito e merece ganhar? “Melhor Ator Coadjuvante” para finalmente reconhecer os méritos de J. K. Simmons. Sempre lembrado como o pai bonachão de Juno (do filme homônimo de 2007), Simmons encontra na quase-vilania de seu personagem a deixa perfeita para mostrar que é feito de fúria cênica que desconhecíamos. “Whiplash” é um filme espontâneo e minha segunda surpresa mais feliz neste Oscar (a primeira fica com Wes Anderson e acho que vocês já perceberam). Mas não esqueçamos de mais um filme que contraria as narrativas regulares de Hollywood e falemos de “Boyhood”.

Boyhood

Quanto tempo esse filme levou para ser gravado? 12 anos. Isso mesmo. Ao longo de mais uma década, Richard Linklater – o diretor – investiu em uma narrativa focada no crescimento de Mason, garoto americano como outro qualquer, que tem noções da vida adulta antecipadas a partir do divórcio dos pais. Uma das sacadas geniais do longa? O decorrer do tempo é contado pelo passar de músicas pop que, de certa forma, também ajudam a contar a história de vida de seus espectadores. Coldplay, Cobra Starship, Britney Spears. Artistas que tocam na rádio e que você não espera ver em um filme queridinho no festival de Sundance (se bem que a trilha também conta com Bob Dylan, Paul McCartney e Yo La Tengo, ok?). O segundo estalo que faz de Linklater uma mente brilhante? A falta de pressa em mostrar que jornadas pessoais não carecem de estardalhaço para revelarem-se grandiosas. Ao longo de três horas de filme em que nada fora do normal acontece, o diretor deixa bem claro que a vida é um fenômeno lírico justamente por sua (suposta) linearidade. Mason cresce diante das câmeras brincando descalço, tendo seu coração partido pela primeira vez e indo à faculdade. Isso basta para afrontar filmes gravados em pouco mais de 12 semanas. O longa concorre nas categorias de filme, diretor, ator coadjuvante [Ethan Hawke], roteiro original, edição e atriz coadjuvante. Por que deixei essa categoria por último? Porque Patricia Arquette (a favorita), nomeada pelo longa, é fraca, aconteça o que acontecer. Advinda de um desses clãs hollywoodianos (feito os Fonda, os Baldwin e os Phoenix) em que se espera que pelo menos um dos rebentos emplaque, Patricia teve seu auge em “Amor à queima-roupa” (de 1993), mas – após um casamento desastroso com Nicolas Cage e participações em filmes ruins – virou uma daquelas atrizes que a gente agradece por ter sumido. Se a performance dela no longe surpreende? Não. Se ela merece o prêmio por “Boyhood”? Não. Mas – diante das demais indicadas por filmes menos inovadores – é bem capaz que Arquette prevaleça como vencedora. Quem de a estatueta de “Melhor Atriz Coadjuvante” deveria ser? Keira Knightley (aquela que eu odiava e que agora virou minha BFF).

 

A histórica verídica de Alan Turning em ‘O Jogo da Imitação’ faz você sair do cinema com o coração destruído, mas Benedict Cumberbatch não deve levar o prêmio de melhor ator.

 

“O Jogo da Imitação” é o primeiro grande feito de Morten Tyldum, diretor norueguês, em solo americano. A trama? A histórica verídica de Alan Turning [na interpretação segura de Benedict Cumberbatch], matemático e pai da computação moderna, às voltas com a Segunda Guerra Mundial e a alteração de códigos que atrapalhem os planos nazistas. Se você sai do cinema com o coração destruído? Sai. Se Benedict é a bola da vez (talentoso + gente fina + engraçado)? É. Aliás, desde o ano passado, na verdade, uma vez que cerimônia de 2014 foi muito mais divertida com o photobomb zuero de Bento atrás de Bono Vox e os demais chatolinos do U2. Se a performance dele garante a estatueta dourada? Ainda não. Se Knightley coloca todas as oponentes da categoria no bolso e, de longe, é a maior merecedora do prêmio? Sim, definitivamente. No entanto, “O Jogo da imitação” concorrente em 8 categorias (filme, diretor, ator, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, trilha sonora, edição e design de produção), esbarra tecnicamente em um longa com traços parecidos e que também envolvem a busca pela exatidão.

“A Teoria de Tudo”, cinebiografia sobre Stephen Hawking e, não obstante, é um filme sobre como o amor ultrapassa barreiras ainda incompreendidas pela ciência. Amor leal e que evolui para devoção, aconteça o que acontecer. Indicado em 5 categorias (filme, ator, atriz, roteiro adaptado e melhor trilha sonora), o longa tem na performance corajosa de Eddie Redmayne seu ponto alto por um motivo bem simples: a intepretação é despida de coitadismo. Em uma das cenas centrais, em que Hawking recebe a notícia sobre sua doença degenerativa, sua única pergunta é “E quanto ao cérebro?” para, assim, determinar como conduziria seus estudos e – mais ainda – nortear como o protagonista balizaria as realizações (teóricas e práticas) de Hawking. Se o desempenho de Redmayne é superior ao dos demais indicados? É. Se ele merece a estatueta de “Melhot Ator”? Merece (e muito). Se é bastante capaz que o Oscar escape das mãos dele e acabe nas mãos de Michael Keaton? É (infelizmente). Logo, saltemos para “Birdman”.

BIRDMAN

Tido como o favorito absoluto em categorias centrais (filme, diretor e ator), o longa narra a história de Riggan, um ator tacanho e cuja carreira escoou pelo ralo quando ele se recusou participar de um nova-sequência-realoaded da franquia (fictícia) “Birdman”. Ao investir em sua estreia na Broadway, ele tem que lidar com Sam, a filha recém-saída de um rehab [Emma Stone], muita confusão nos bastidores da peça próxima do lançamento e, pior ainda, a presença de Mike [Edward Norton], um coadjuvante de atuação fenomenológica e que não aceita seguir roteiros de alguém que – de certa forma – considera inferior. Se a sacada do diretor Alejandro González Iñárritu é épica? É. Como se o filme fosse feito em um vertiginoso plano sequência (em que gravações acontecem sem cortes), “Birdman” celebra o que o cineasta mexicano tem de melhor: a habilidade extrema com narrativas acíclicas e/ou criadas em um ritmo que só ele entende. Camadas e camadas imagéticas que ganham sentido quando acompanhadas do som em um verdadeiro concerto semiótico/sensorial. Até aí, ok. Alejandro merece todos os prêmios aos quais concorre, exceto a indicação mais indigesta desse Oscar. E é claro que me refiro a Michael Keaton. O ator, cujo auge aconteceu entre o final dos anos 80 e os primórdios da década de 90, despontou como o Beetlejuice de “Os Fantasmas se Divertem”, de Tim Burton e – automaticamente – tornou-se a primeira musa do diretor. Protagonista dos dois primeiros filmes de Batman, Keaton deu vida a um herói soturno, despido de charme e que não acompanhava a graça dos vilões com quem contracenava. O efeito colateral? Quando Burton encontrou em Johnny Depp seu verdadeiro parceiro no crime, Michael ficou para trás comendo poeira e, maiormente, amargando fracassos proporcionais a sua falta de densidade dramática. Se foi por isso que Iñárritu convidou Michael Keaton para protagonizar “Birdman”? Foi. Quem melhor pode interpretar um fracasso além de um fracassado? Pois é, ninguém. Se esse é o detalhe assustador? É. Além de apenas dar vida a si mesmo (como se o filme fosse sua cinebiografia), Keaton não se desconstrói para que o longa aconteça, permitindo apenas que os pulsos firmes do diretor (e o time imbatível de coadjuvantes) façam a mágica de “Birdman” acontecer. Se Keaton é o favorito para o prêmio de “Melho Ator”? É. Hollywood adora um coitadinho que, após anos e anos navegando pelo ostracismo, tem um “retorno triunfal e inesperado”. Coisa bastante similar ao que aconteceu com Mickey Rourke e “O Lutador”. Rourke não levou o prêmio e o filme em si é muito bom, mas vê-lo em cena era o mesmo que ver sua vida (re)contada em um conto de fadas autopiedoso. A atuação de Michael segue a mesma lógica, mas premiá-lo torna-se quase uma questão política para dizer, sutilmente, que toda ignorância/fracasso americana(o) será justificada(o)/legitimada(o). Se Eddie Redmayne é um protagonista infinitamente superior? É. Mas a Academia não necessariamente recompensa o brilhantismo por temer o esclarecimento de ideias, não é mesmo? Outro exemplo de como as cortinas do Oscar escondem bem mais do que estatuetas douradas e piadinhas de seus apresentadores? Olhemos para “Sniper Americano”.

 

O filme de Eastwood é a reiteração anual de que os interesses políticos do Estado serão defendidos com sangue, estatuetas e filmes com conceitos distorcidos/lobotomizados.

 

Dirigido por Clint Eastwood, o filme gerou comentários eufóricos/ufanistas/patrióticos ao lançar sua versão sobre a segunda incursão americana no Iraque. Se o timing não poderia ter mais propício? É claro que não. Ao declarar guerra contra o Estado Islâmino ao final de 2014, Obama – ou melhor, o cenário político americano – demandava que o conceito de terror/estado de alerta fosse novamente reforçado no imaginário de seu povo. Uma das formas mais eficazes de materializar tal intento? Jogar nas mãos de Eastwood (conservador assumido e entusiasta de toda e qualquer intervenção bélica que garanta a “segurança” dos “valores de sua pátria”) um roteiro que glorifica a violência em nome “do bem da nação”. Até porque essa é a espinha dorsal de Chris Kyler, atirador americano que – entre 2003 e 2009 – matou mais de 160 “inimigos” em missões no Iraque. Em uma admiração esquizofrênica pela opressão que tanto os torna inertes, os fãs americanos do longa deixam de lado qualquer choque com a notícia de uma possível nova guerra e, mais ainda, a recessão que ainda delineia a segunda gestão de Obama para, assim, fazer de “Sniper Americano” o filme que os salva de si mesmos. Indicado em 6 categorias (filme, ator, roteiro adaptado, edição, edição de som e mixagem de som), o longa é apenas a reiteração anual de que a Academia pode até não ser composta por grandes entusiastas de Obama, mas que – aconteça o que acontecer – os interesses políticos do Estado serão defendidos com sangue, estatuetas e filmes com conceitos distorcidos/lobotomizados como “Guerra ao Terror” e “A Hora Mais Escura” (ambos de Kathryn Bigelow e amplamente usados para campanhas ideologicas contra o Islã). Se Clint Eastwood se sai bem na direção? Não sei dizer o que vocês têm por “se sair bem”, mas – a partir do momento em que paranoias nacionalistas tornam-se maiores que sua missão cinematográfica – temos um problema gigantesco com a qualidade do filme. Como Bradley Cooper está na pele de Chris Kyler? O galã inexpressivo de sempre e que serve melhor à franquia “Se Beber, Não Case”. Se Academia adora esse tipo de atuação? Ah, adora. Não pela qualidade dela, mas para chancelar que, sim, o Islã continue estereotipado e distorcido diante das câmeras hollywoodianas.

Quais outros filmes-nanicos são favoritos para os prêmios do próximo domingo? “Para Sempre Alice”, drama sofrível sobre a protagonistas às voltas com um diagnóstico precoce de Alzheimer. Quem (provavelmente) leva o prêmio de “Melhor Atriz”? Julianne Moore. O motivo? Hollywood ama filmes sobre pequenas tragédias familiares comoventes (assim como atores que ganham/perdem peso ou envelhecem/embarangam em cena). De quem de fato deveria ser a estatueta dourado de 2015? De Marion Cotillard, é claro. Protagonista de “Dois Dias, Uma Noite” a atriz – já oscarizada por “Piaf” – encarna Sandra, uma operária que – afastada de seu posto para tratar-se de depressão – tem seu emprego colocado em risco (assim como o sustento de sua família). A missão de Sandra? Convencer seus colegas de trabalho – ao longo de um final de semana – a apoiarem sua permanência na empresa em detrimento de uma bonificação que cada um ganharia com a demissão da moça. Se o filme é cansativo? É. Se Marion reina em cena como nunca? Infinitamente. Mas como Hollywood nem sempre se deixa levar pelos dramas alheios (“Dois Dias, Uma Noite” é um filme francês), as flechas permanecem apontadas para Julianne.

 

Quer acompanhar a transmissão do Oscar sem pensar em política e apenas falar mal dos vestidos das famosas? Você pode!

 

Os comentários adicionais? O Oscar 2015 é uma cerimônia branca. Isso mesmo, branca. Sem que indicar/destacar nenhum profissional/produção negro do cinema (“Selma” cinebiografia sobre Martin Luther King corre por fora as poucas categorias em que foi indicado), a Academia priorizou dramas de donas de casa de classe alta (“Para Sempre Alice”) e atiradores de elite em conflitos existenciais (“Sniper Americano”). O detalhe que quase passa batido em “Boyhood”, o filme indie-imparcial-incapaz-de-fazer-propagandas-ideologicas? O personagem de Ethan Hawke – em dado momento – espalha bandeiras pró-Obama por jardins de vizinhos que opõem-se à candidatura do presidente. Se Hollywood – mesmo conservadora – curte esse tipo de reforço político no cinema? Já sabemos que sim. O saldo final dos indicados desse ano? A sensação de que faltaram filmes desafiadores/inovadores e que este foi o pretexto perfeito para que as cortinas políticas de Hollywood permanecessem abertas para a cultura do terror. Se você pode acompanhar a transmissão do Oscar sem pensar em política para apenas falar mal dos vestidos das famosas? É claro que pode. Se Neil Patrick Harris também mereceu seu carinho/atenção? Merece. Até porque o rapaz já sofreu bastante em sua cena final em “Garota Exemplar”. Mas esse é mais um spoiler que vou guardar pra mim (pelo menos dessa vez).


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