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CRÍTICA – O recomeço radiofônico radiante de “Mesmo Se Nada Der Certo”

“Begin Again” é sobre o recomeço de pessoas despedaçadas.

Begin Again, Guy Lodge

Meu apreço por Mark Ruffalo era inversamente proporcional ao pavor que nutri por Keira Knightley durante muito, muito tempo. Insossa, blasé, inexpressiva. Foram muitos os adjetivos carinhosos que usei para me blindar das performances da atriz, especialmente após sua participação constrangedora em “Um Método Perigoso”, de David Cronenberg. Severa, além de não entender que o filme era um equívoco por parte de um diretor (cada vez mais delirante), ignorei o fato de que aquela era a primeira tentativa extrema de Keira para dissociar sua imagem da trilogia “Piratas do Caribe”. Embora “Orgulho & Preconceito”, longa lançado antes da catástrofe de Cronenberg, tenha lhe rendido uma indicação ao Oscar de “Melhor Atriz”, Keira permanecia na previsibilidade de filmes de época e mocinhas reféns de amores torturantes (fato que se repete em “Anna Karenina”, 2012). Assim, receber a notícia de que a atriz estrelaria um filme meio musical com Adam Levine, vocalista de agudos sofríveis do Maroon 5, fez com que meu lado hater se divertisse bastante com a iminência de um desastre sem tamanho. A vida, no entanto, mostrou não só que minha presunção de genialidade era ridícula, mas que a ressignificação seria a grande regente de um filme leve como tudo deve ser.

“Begin Again” – miseravelmente traduzido como “Mesmo Se Nada Der Certo” – narra a história de Dave Kohl (Levine, no caso), um rockstar que, além de surfar no topo da Billboard, também desfruta de seu primeiro grande hit cinematográfico. Ao mudar-se para Nova Iorque para gravar seu novo disco no Eletric Lady – estúdio responsável por álbuns de Bowie, Zeppellin, Stones e Lennon – e, de quebra, ser hospedado em um loft sutuoso no coração de Manhattan, o cantor também é catapultado para uma turnê em que a presença de sua namorada não é incluída. Gretta (personagem de Keira), na realidade, é o cérebro da carreira de Dave, sendo sua compositora e parceira leal que troca a tranquilidade londrina para acompanhá-lo no que der e vier nova-iorquino. Subestimada pelos executivos da gravadora de seu boy-magia-cantante, a moça ganha funções aleatórias como a de buscar e entregar cafezinhos, sendo claramente privada de viver suas próprias aspirações para priorizar a carreira do rockstar. Em apenas um mês na nova cidade, Gretta é traída por Dave e sutilmente colocada para fora de casa com uma mala de mão, um violão e sua bicicleta com cestinho primaveril. Como nem tudo sempre está perdido, ela reencontra Steve (James Corden em sua melhor atuação para o cinema), um amigo de infância que cadencia o mote do longa metragem: se Gretta era tão boa servindo à carreira do ex-namorado, ela poderia ser melhor ainda acumulando energia criativa para sua própria música.

(L-R) KEIRA KNIGHTLEY and ADAM LEVINE star in CAN A SONG SAVE YOUR LIFE?

Arisca e um pouco descrente, a protagonista esbarra em Dan Mullingan (Ruffalo), produtor decadente, depressivo, alcoolatra, traído pela mulher, desmerecido pela filha adolescente e, por fim, expulso de sua gravadora por Saul (vivido por Mos Def), um antigo sócio. Ufa. Tão danificado quanto Gretta, Dan reconhece na música dela a chance de finalmente cuidar de um projeto que reconstrua sua vida. Sem dinheiro para gravar o disco e, maiormente, disposto a reinventar-se para fazer o improvável acontecer, Mullingan tem a epifania das epifanias: gravar o álbum a céu aberto, por diferentes localizadades, usando os sons da cidade – e até seus imprevistos – como os ingredientes secretos de sua receita musical. Correndo da polícia aqui e driblando vizinhos reclamões acolá, Gretta faz seu primeiro disco autoral com a ajuda de Dan, uma big band (que participa do projeto por paixão) e Troublegum (papel de CeeLo Green), artista lançado por Dan e que oferece sua fama para alicerçar a carreira da inglesa. A participação especial de Green e Mos Def, aliás, não é mera coincidência. Ciente de que Adam Levine atrairia publicidade e bilheria na mesma proporção em que atiçaria críticas, o diretor John Carney colocou em cena duas figuras cujas reputações artísticas justificariam qualquer deslize atribuído a Levine. Def, rapper-classe-A, e CeeLo, produtor-frontman da dupla Gnarls Barkley, criam um jogo de cena grandioso e, além disso, atraem espectadores de diferentes estilos musicais para consolidar a formação de público.

Sutilmente provocativo, o cineasta tem em seu roteiro linear – típico de uma comédia romântica digna “Sessão da Tarde” – a jogada que me rendeu diante de Keira Knightley: “Begin Again” até é sobre corações partidos e lamentos chorosos, mas é – acima de tudo – sobre artistas independentes e suas saídas deliciosamente insólitas para que o êxito musical aconteça. O longa deixa claro, sem grandes pretensões, que a “estrutura indispensável de grandes estúdios” (como mesas de som, isolamento acústico, microfones superpotentes e formações de bandas monstruosas) tornou-se balela há tempos com as facilitações digitais. A outra provocação é o fato de Adam Levine, que abdicou de seu cachê para estar no filme, ser um detalhe quase despercebido durante o filme inteiro. Seja pelo dream team de coadjuvantes (que inclui a sempre incrível Catherine Keener) ou pela naturalidade de Keira (que reina na trilha sonora inteira sem nunca ter cantado ou tocado violão antes), o cantor é um mero detalhe de quem a gente até sente um pouco de pena no final. Não que ele necessariamente se ferre, mas – curiosamente – seu personagem é o único que termina com destino indefinido. Meio como se ele recebesse o troco de todas as garotas de quem partiu o coração, subestimou ou perseguiu em seus videoclipes (todos – sem exceção – com o aludido vocalista no papel de pica-das-galáxias, mas isso é discussão pra outra hora).

On Location For "Can A Song Save Your Life?"

“Begin Again” é sobre o recomeço de pessoas despedaçadas e com fé inabalável de que apenas o acaso as remendará. Indicado ao prêmio de “Melhor Canção” no Oscar 2015, o longa terá sua estatueta defendida por Adam Levine e sua apresentação de “Lost Stars” e, embora eu já tenha mencionado minhas diferenças com o vocalista no Maroon 5, minha torcida é para ele por um motivo bem simples: a música (lindíssima) contraria o preciosismo hollywoodiano e, se é para combater o conservadorismo com delicadeza, que “Lost Stars” saia vencedora. Além disso, o diretor John Carney já tem experiência na categoria desde “Once”, de 2007, e “Falling Slowly”, sua canção original laureada. Ah, e minha torcida por Keira Knightley continua na categoria de “Melhor Atriz Coadjuvante” por sua performance precisa em “O Jogo da Imitação”. Mark Ruffalo também concorre na mesma categoria por “Foxcatcher”, mas nem de longe é meu favorito. Mas isso (novamente) é papo para outra hora. Aliás, time to go. Já me redimi com Keira e debutei no Imerso. Isso vale mais que estatueta dourada.


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