logo

ENTREVISTA – Quem é o Barão Macaco?

Hector Lima fala sobre ‘A Ameaça do Barão Macaco’, seu novo gibi.

destaque

Os vigilantes estão em alta. Aliás, sempre estiveram no mundo dos quadrinhos. Vide Batman, Arqueiro Verde, Demolidor e tantos outros, estes entre os mais famosos da cultura pop. Já pensou se tivéssemos um vigilante brasileiro, com tons tupiniquins, que combate o crime e a corrupção? É o que se propõe a HQ ‘A Ameaça do Barão Macaco’ de Hector Lima, Milton Sobreiro e Felipe Sobreiro.

‘A Ameaça do Barão Macaco’ é um gibi “noir tropical” com mistério e ação que se inspira em vigilantes pulp, como os já citados no parágrafo acima. O contexto é a realidade brasileira: conflitos entre facções, polícia e políticos corruptos. Cenários que já vimos em filmes como Tropa de Elite e seriados policiais da Globo. Entretanto, o surgimento de um vigilante que usa máscara de macaco para realizar seus crimes dá um tom surreal de aventura e mistério característico do mundo dos quadrinhos.

Numa realidade em que a corrupção e o crime compensam, as ações do Barão o colocam na posição de vilão, criminoso, destruidor da ordem estabelecida. A história é contada do ponto de vista dos “corruptos” e é neste cenário que o anti-heroi primata se instala e cria o clima que irá desenvolver o restante da narrativa. Li a parte inicial do gibi, comprado na Comic Con Experience 2014, e gostei do que foi apresentado. O roteiro de Hector é cuidadoso e de ritmo fluido, trabalhando em sinergia com o traço de Milton, que dá um clima mais sombrio à história, e as cores de Felipe. A narrativa possui mitologia própria, como a origem do próprio Barão, e personagens com potencial de ganhar o coração dos leitores. Minha favorita é Renata, jornalista que entra na história para investigar os crimes do vigilante e descobre mais do que deveria, como uma boa jornalista. Mas existem muitos outros que são tão complexos e interessantes quanto a moça como o delegado Fonseca e o vereador Beto Vidotto.

O que mais me chamou atenção na história é a ambientação num cenário brasileiro, sem cidade definida como São Paulo ou Rio de Janeiro, mas que faz com que o leitor se identifique com o ambiente, os diálogos, o contexto. Afinal, embora algumas paisagens sejam reconhecíveis como o prédio do Hotel Jaraguá, em São Paulo, a trama pode se passar em qualquer cidade brasileira. É completamente plausível se enxergar dentro daquela realidade, não tão distante quanto Gotham City ou Star City. É neste tom mais local que reside o brilho do Barão.

O gibi, já finalizado, está em processo de crowdfunding para custear sua impressão e distribuição pelo selo Fictícia, coletivo de narrativas da nona arte do qual Hector e Felipe fazem parte. O Imerso apoia o projeto e acredita que boas histórias devem ser publicadas e distribuídas no mercado brasileiro. O Fictícia é um dos selos mais inovadores do momento, tendo lançado recentemente a HQ Mayara & Annabelle, uma narrativa com tom de Scott Pilgrim, magia e cenário nordestino.

O financiamento coletivo é uma alternativa viável para que pessoas como nós, que não possuem rios de dinheiro, possam apoiar projetos de pessoas que também não possuem rios de dinheiro ou uma grande editora por trás. Nestas publicações independentes encontramos textos e histórias com críticas mais lúcidas e uma liberdade criativa de encher os olhos. É o caso de ‘A Ameaça do Barão Macaco’. Se você se interessou pela trama, pode conferir a página do projeto no Kickante, conhecer um pouco mais do universo narrativo e as recompensas para cada contribuição.

Por fim, entrevistamos Hector Lima, roteirista, para saber um pouco mais da história do Barão Macaco e do processo de produção do gibi. Ele falou de suas influências, o processo de financiamento coletivo e de uma possível continuação para a história.

Captura de Tela 2015-04-25 às 19.36.36

Hector Lima é redator, roteirista e co-fundador do Fictícia. Já foi indicado três vezes ao Troféu HQ Mix: em 2008 (Web-Quadrinho – O Major), em 2013 (Roteirista Revelação – MSP Novos 50) e em 2014 (Edição Especial Nacional – Sabor Brasilis). Além disso, colaborou no roteiro de Necronauta – vol 2, nas HQs Front, Manticore, Commercial Suicide e organizou a coletânea de brasileiros Inkshot.

Confira a íntegra da entrevista:

Quais as influências da história, personagens, cenários?

“Barão Macaco” é a mistura de duas ideias básicas: vigilantes pulp da Ficção e um assalto que sofri há alguns anos em Santos, minha cidade Natal. Eu adoro vigilantes mascarados como Batman, Sombra, John Sable, Arqueiro Verde / Arrow, Demolidor e comecei a pensar em como era curioso o clássico personagem Fantasma ser um branco inglês defendendo uma região da África – e o oposto, como seria? Um vigilante negro defendendo uma cidade brasileira em que as cartas são dadas pelos brancos de classe alta. O assalto em si me levou a pensar ainda mais sobre as motivações por trás daquilo, qual era a história que levou aqueles dois caras a apontar uma arma pra mim e meus amigos. E eu vi na arte do Milton Sobreiro o estilo perfeito pra retratar esse “noir tropical”, essa história de suspense com toque brasileiro.

Qual você acredita que é a importância do anti-herói para a história?

Sempre me perguntam se é possível existir de fato um super-herói brasileiro nos gibis. Além de responder que já existem, eu respondo que tudo depende de como a gente se enxerga como povo. Quando se fala de heroísmo e combate ao crime não tem como deixar de pensar em questões de moralidade. Os norte americanos se enxergam como um povo puro, sério, um bastião da moralidade – e nós brasileiros nos vemos em geral como um povo impuro, safado, que faz coisas erradas mesmo e tira sarro de tudo. Essas questões de moralidade e auto-imagem são bem interessantes pra se pensar uma história de herói no Brasil.

E foi isso que eu quis abordar em “Barão Macaco”: em um contexto no qual o crime é a anomalia – ou pelo menos visto como tal – o herói é o que o combate e o vilão o que o pratica. Invertendo a situação, em um cenário em que o crime é o jeito normal de fazer as coisas, quem o combate seria visto como vilão, ou pelo menos um anti-herói, um ruído na comunicação. Ainda mais quando se conta a história do ponto de vista dos criminosos, como é nessa trama: o ponto de vista é o das facções Quinto Partido, Comando Treze e na Polícia. Todos enxergam o Barão Macaco como uma lenda, uma assombração, quase como uma entidade sobrenatural. Ele se aproveita disso, e nesse contexto é enxergado como o vilão da história.

Você acredita que ter uma cidade inspirada em São Paulo como cenário faz com que o leitor se identifique mais com a trama?

A ambientação é muito inspirada na selva de pedra de São Paulo, mas é uma metrópole sem nome, que mistura lugares e situações de qualquer lugar em que só o lucro importa. Mas é muito importante o cenário ser brasileiro, pelas questões de moralidade, contextualização e identificação – tanto minha para escrever quanto do leitor para ler. Tráfico de drogas e armas é um dos negócios mais lucrativos do mundo e está presente em quase todo o planeta, mas algumas das práticas mudam de acordo com a cultura de cada país. A cidade de São Paulo é um organismo gigante, com uma densidade populacional imensa, mistura de diversas culturas e bastante contraste social. Eu brinco às vezes chamando de MegaCity 1, o cenário das histórias de Judge Dredd. E ela tem muito de Gotham City também – é só andar pelo Centro (eu adoro) e ver o certo charme que tem a decadência urbana; mas ao mesmo tempo é muito viva, oferece um material humano bem interessante pra se criar histórias. Acredito que cada vez mais a gente vai se enxergar na Ficção de gênero. É possível fazer tramas de aventura, humor e magia, por exemplo, como a que meus amigos Pablo Casado e Talles Rodrigues fizeram muito bem em “Mayara e Annabelle”, usando contextos regionais. Isso faz parte de um novo momento, em que a gente começa a se valorizar mais, a ter orgulho da própria cultura e de ser brasileiro, apesar dos problemas.

Como o processo de financiamento coletivo contribui para a sua história e para tantas outras independentes?

Gibi no Brasil ainda está caminhando pra voltar a ser entretimento de massa, e pra sobreviver no gueto, no nicho. Em termos de grana o mercado consumidor de produção nacional está crescendo, mas ainda não se sustenta fora da Mauricio de Sousa Produções. Quase todos os autores brasileiros que vivem exclusivamente de fazer gibi trabalham para o mercado americano ou Europeu, onde os hábitos de leitura são mais consolidados e o mercado movimenta valores bem mais altos. Nosso maior comprador ainda é o governo federal, com os programas que abastecem bibliotecas e escolas públicas. Enquanto isso, para a produção de nicho sobreviver e ser fomentada, a gente conta com editais como o ProaC e inciativas privadas como financiamento coletivo. Ele te permite dimensionar seu público potencial, e conseguir produzir diretamente pra ele. O que uma editora talvez não bancasse, a galera leitora banca. A gente tá formando uma nova geração de leitores, acostumados a ler histórias brasileiras, ambientadas no Brasil, inclusive de personagens que seguem em mais de uma história. O futuro próximo vai ser bem interessante.

O Barão Macaco terá continuação ou é uma história com início, meio e fim?

Nessa nova campanha eu renomeei o livro para “A Ameaça do Barão Macaco”, que é uma história fechada sim, com começo, meio e fim. Mas que dá margem à continuação, “A Selva do Barão Macaco”, no mesmo modelo de episódio com duas tramas: uma pontual que se fecha, outra mais ampla que continua. Tenho ideias para muitas tramas do Barão, mas se conseguirmos fazer uma trilogia eu já ficaria feliz. Vamos ver como vai ser esse primeiro!

Colabore com o financiamento coletivo de ‘A Ameaça do Barão Macaco’ clicando aqui. 


Gostou deste texto? Clique aqui e saiba como apoiar o nosso trabalho.



| Barão Macaco, Entrevista