logo

ANÁLISE – O Legado de Glee

O maior sucesso de Ryan Murphy chegou ao fim reforçando a importância da diversidade.

gleeclub

Até o ano de 2009 o painel dramatúrgico das séries de TV adolescentes era bem caracterizado. No início dos anos 90, os maiores sucessos do gênero respeitavam categoricamente as fórmulas estabelecidas anteriormente. A linguagem era simples, burocrática, como um texto institucional sobre comportamento adolescente. Produções de sucesso como Barrados no Baile falavam de drogas, gravidez precoce, violência, sexo, entre outras coisas, com o tom adequado e conservador das histórias feitas para a “família americana”.

As exceções eram poucas e foi só no final dos anos 90 que começaram a aparecer as séries teen com uma linguagem mais ousada. Dawson’s Creek não era uma produção de muita movimentação factual, mas tinha um vocabulário inusitadamente maduro e diálogos sagazes pouco comuns na televisão. Freaks And Geeks era irônica e debochada como não se costumava ver por aí e ambas não caíam na cilada de chapar seus personagens com uma personalidade imutável. Séries adolescentes, essencialmente, tinham a intenção de “educar”, vender e criar símbolos sexuais. Eram produtos de consumismo e referenciação superficial da vida em sociedade.

Isso acontecia até o showrruner Ryan Murphy – que estava se dando bem no comando do drama Nip/Tuck (uma série bizarra sobre cirurgia plástica) – conseguir da Fox a aprovação para a produção do piloto de uma coisa chamada Glee, um investimento perigoso na área dos musicais que, por causa do evento High School Musical, tinham ganhado certo fôlego. Murphy, é claro, não tinha interesse em reproduzir o fênomeno HSM e surgiu com um episódio piloto que já traía o primeiro aspecto referencial das séries teen: criar símbolos sexuais pasteurizados. Glee era protagonizada por uma atriz com um perfil rústico, acompanhada por um time de colegas que era composto por uma negra obesa, um homossexual afetado, um cadeirante nerd, um atleta burro e uma asiática gótica. Eles é que foram capazes de se tornar, por vias nada convencionais, sex symbols. Depois, juntavam-se a eles uma líder de torcida cristã hipócrita, uma outra líder de torcida lésbica e maldosa, um marginal e mais um punhado de tipos nada “vendáveis”.

Loser Like Me

Já no episódio piloto, as coisas ficavam muito bem estabelecidas: a série se sustentaria na base da pirâmide de popularidade do clássico high school americano. Essa não seria uma história sobre os belos e bem-sucedidos da classe, mas sim uma jornada acerca do underdog, do excluído, do oprimido por esses mesmos valores de importância social. A cada episódio, a desgraça de não ser do time dos populares era sublinhada por agressões, humilhações e constantes banhos involuntários de slushies (uma raspadinha de gelo, com sabores, que era jogada na cara dos “losers”). Ansiosos por encontrar seus lugares naquela engrenagem, estes “perdedores” se unem num objetivo que só piora suas imagens de ferrados: o Glee Club.

Cada um daqueles personagens pouco vendáveis possuía um anseio artístico que ganhou voz na sala do coral. Ali dentro eles eram fortes e encontravam na arte uma reiteração de importância. O professor Will Schuester (Matthew Morrison) entendia que as escolas eram cercadas de programas de incentivo e patrocínio aos esportes, mas que o programa de artes era sempre esquecido. Na organização social do high school, a popularidade estava impressa no sucesso de atividades esportistas e de tradição social. Só os “estranhos” faziam artes. Esta foi, enfim, a premissa que guiou as intenções do criador Ryan Murphy para, através de Glee, tentar reforçar a importância da atenção ao julgamento de valores sofridos o tempo todo no tóxico e cruel ambiente do ensino médio americano.

A igualdade está em todos nós, mas somos forçados a acreditar que a diferença precisa ser reconhecida.

Entretanto, a vitimização do oprimido não era a ordem do dia no texto do show. Glee estreava com uma dose inesperada de ironia e deboche. Entre os “perdedores” havia personalidades ‘egomaníacas’ e atos de maldade eram passíveis de acontecer em qualquer esfera. A busca pela popularidade dentro do próprio coral, implodia, em vários momentos, a premissa exata pelo qual o clube tinha sido criado… A Rachel de Lea Michele era brutalmente egoísta, tanto quanto sua rival popular, a líder de torcida cristã que engravidou do melhor amigo do namorado. A homossexualidade latente de Kurt (Chris Colfer) era constante alvo de bullying, mas a outra homossexual do grupo (Santana) se recusava a ser a vítima e combatia, com uma assustadora franqueza, todos que cruzavam seu caminho. Glee não era condescendente com seus exemplos de diversidade e não tornava suas minorias uma bandeira de caráter puro. Todos queriam ser tratados como iguais, então a série mostrava que todos eram iguais. Becky (Lauren Potter), por exemplo, tinha síndrome de down e era uma das grandes vilãs do show.

Os números musicais, responsáveis por demonstrar uma imensa maturidade na escolha de novos arranjos para canções clássicas ou contemporâneas, costuravam todas as tramas. Os covers de Glee iam de um número da Broadway ao último hit de Katy Perry. Todas as canções eram tratadas com a devida reverência e, ao alcançarem o espectador, também lhe enriqueciam, por tabela, a intimidade com todo tipo de gênero musical possível. Consumir a música de Glee era o mesmo que conhecer um pouco mais de tudo que era relevante conhecer. E o melhor: elas eram cantadas por um grupo de excluídos que parecia querer transmitir a ideia de que o futuro abraça a arte sem ver de onde vem o artista, um conceito utópico em primeira instância, mas que funcionava em essência. Todos nós queríamos ser um “loser” como um “loser” que se estampava em Glee.

O mundo “Gleek”

Assim que virou um sucesso de público, crítica e vendas, Glee também encontrou as condições perfeitas para ousar ainda mais. Em seus seis anos de duração, falou de sexualidade como nenhuma outra série do gênero. O relacionamento homoafetivo entre Kurt e Blaine (Darren Cris) foi tratado, inclusive, com a mesma plenitude como se é tratado qualquer outro casal heterossexual protagonista. A homossexualidade feminina também teve seu espaço e cada detalhe acerca de se assumir, e viver a liberdade dentro dos corredores de um colégio, foi abordado. Na quarta temporada, inclusive, um personagem transexual foi inserido e ajudou a aumentar o grupo de “estranhos” que combatiam a falta de tolerância com arte.

glee

Glee teve um coral de surdos, um coral de transexuais, uma “rainha do baile” homem, uma “rainha do baile alternativo” com down, um baile onde meninas convidavam meninos, um time de futebol que dançava Beyoncé, uma treinadora que virou treinador, evangélicos, católicos, ateus, gordinhas super seguras de si e uma cadeirante que dizia que não ia pra cama “com perdedores em cadeiras de rodas”. Se fosse falar de álcool, não fazia discursos moralistas e embebedava os bonzinhos. Se fosse falar de sexo, falava de como portadores de down também são sexuais. Se fosse falar sobre o julgo da aparência, falava isso através do direito à expressão individual. Se fosse falar de realizar sonhos, mostrava que é preciso aceitar que alguns sonhos não são realizados. Se fosse falar de fé, mostrava como um ateu pode se comover dentro de uma igreja sem precisar acreditar nela… Enfim, por cada ponto delicado que Glee passava, ia contra a correnteza, contra a obviedade…

Independente dos tropeços no decorrer de seis temporadas, a série não titubeou no seu compromisso com a construção de um ideal. No fim, Ryan Murphy brincou de tornar sonhos utópicos em realidade e deu ao ambiente escolar, nocivo e burocrático, o direito de acolher, definitivamente e especialmente, todos aqueles que descobrem na arte o seu impulso. De todos os legados deixados por Glee, o maior deles é o de que a igualdade está em todos nós, mas somos forçados a acreditar que a diferença precisa ser reconhecida. Glee disse que todos somos iguais, capazes do bem e do mal, do certo e do errado sem escudos na posição de oprimidos injustiçados. Há a igualdade, mas ela precisa ser vista. É claro que a partir da série pode se ter uma noção muito clara de como pais, amigos, professores e educadores devem se responsabilizar por como vão tratar dos seus. Mas, precisa haver, sobretudo, a noção de que a compreensão das necessidades de um indivíduo é o primeiro passo para tornar sua existência mais positiva.

No último episódio da série, houve uma grande celebração do quanto a arte, em si, é sobre abrir-se para a alegria e fortalecer o desejo de viver em plenitude. Se a mensagem é um pouco piegas? É sim… Mas sensacional é saber que, ao olhar pra trás, toda a trajetória de Glee foi regada de sarcasmo, deboche, cinismo e ironia. E que foram essas bases inusitadas que construíram um programa que consegue, no meio de tanta intolerância, encerrar sua vida como uma referência de otimismo, franqueza, originalidade e inclusão. A canção que Glee tocou pela bandeira da diversidade humana (não sexual apenas, mas humana), ninguém conseguiu tocar antes.

Por sorte, alguns ao redor do mundo conseguiram ouvir esta melodia e seus ecos serão a nossa maior esperança de que, em algum momento da história, o texto de uma série de TV conseguiu melhorar a vida real.


Gostou deste texto? Clique aqui e saiba como apoiar o nosso trabalho.



| Análise, Glee