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A explosão colorida de TupiniQueens

O registro da glória da nova cena drag brasileira

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Drag queens não são mais novidade. Se tornaram estrelas pop, principalmente se pensarmos nas participantes de Rupaul’s Drag Race. A origem da prática de se montar é geralmente atribuída aos tempos de Shakespeare, quando mulheres não podiam fazer teatro e homens se vestiam de personagens femininos. O termo drag, por exemplo, é uma abreviação de “Dressed Resembling a Girl” ou “vestido como uma menina”. Drag queen é basicamente um homem que se veste de mulher para interpretar um personagem ou uma mulher que se monta de homem (as Drag Kings) com o mesmo propósito. Não tem nada a ver com gênero ou sexualidade, mas confunde a cabeça das pessoas. Quer dizer que um homem hétero pode se montar também? Pois é… Arte não determina sexualidade. Ainda assim, a maioria das drag queens são gays.

Na história da montação, muito antes de ‘Priscila, a Rainha do Deserto‘ se tornar popular como um filme de drag queens, Divine, a drag, fez sucesso nos anos 70 com os filmes trashs de John Waters. A cultura drag era confinada aos guetos dos clubes e baladas gays e se tornou um nicho da cultura pop.

Ouso afirmar que depois de Divine, Rupaul é a drag queen mais conhecida de todos os tempos, principalmente depois da estreia de seu reality show em 2009. Rupaul’s Drag Race marca o início da ascensão da cultura drag no mundo pop, uma cultura que hoje domina o mainstream e tira a arte rica das montações do escuro, lançando-a aos quatro cantos do mundo. A título de comprovação, veja o gráfico abaixo que mostra o quanto a busca pelo termo “drag queen” cresceu vertiginosamente a partir de 2009:

No Brasil, o gráfico de pesquisa é ainda mais interessante, com um pico em janeiro de 2010, justamente quando Dicesar Ferreira, a drag Dimmi Kier, participou do Big Brother Brasil 2010. Posteriormente, o termo só cresce.

Quanto a Rupaul’s Drag Race, mundialmente a busca só cresceu, com picos em fins de temporadas.

No Brasil, o reality show passou a ser tornar popular a partir de novembro de 2013, quando a Netflix disponibilizou todas as temporadas. Foi a partir deste momento que muita gente conheceu a arte drag, Rupaul e, nacionalmente, começou a levar a sério a valorização das drags locais defendida por Mama Ru. É neste momento que começam também a surgir novas drags na cena nacional, uma galerinha inspirada no reality que começa a se montar e se jogar na noitada. É aqui que começa o que João Monteiro, diretor do filme TupiniQueens, chama de novo boom drag. E ele não está errado.

O filme documentário TupiniQueens registra este momento histórico da arte drag nacional, um momento em que novas artistas surgem e ganham espaço enquanto convivem com as estrelas de Rupaul. É um filme que faz um paralelo entre o passado das drags com Márcia Pantera, que inicia o filme, parte para as novinhas da cena como Trio Milano e Gloria Groove, passa pelas experientes, mas desconhecidas, como Lorelay Fox e parte para as drags americanas mostrando quem é quem neste novo boom.

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Um elemento importante neste cenário retratado pelo filme é a festa Priscilla, que começou em outubro de 2014 com a proposta de trazer as drags participantes de Rupaul ao Brasil. O sucesso entre o público foi absoluto, assim como o timing. Já passaram por aqui Shangela, Yara Sofia, Raja, Jinkx Monsoon, Bianca Del Rio, Alaska, Latrice Royale, Milk e Adore Delano, para citar algumas. A produção do filme TupiniQueens acompanhou a maioria destas festas, apresentando um resultado estético tão interessante que faz o coração arder. Era, obviamente, uma das propostas do filme, de acordo com o diretor João Monteiro: “Consideramos bastante as imagens por se tratar de um documentário, que já é um formato um pouco difícil de lidar. A gente quis garantir visualmente um negócio muito firmeza e atrativo”.

TupiniQueens tem pouco mais de uma hora e meia de duração e foca na cena drag paulista. Além de contar as histórias de seus personagens, aborda de forma sensível pontos importantes para quem ainda não conhece a cena e para quem quer conhecer algo mais a respeito do assunto. As histórias pessoais das drags, mixadas com temas polêmicos como gênero e aceitação, fazem do filme uma ode de humanização das drag queens. “É a verdade da história. Humanizar era nossa intenção, assim como a Rupaul humanizou essas figuras para nós.”, diz Monteiro.

“É atraves das drags que apresentamos os temas do filme e cada uma delas traz um tema especifico, além de falar de si e de como é relevante para a cena.’, diz Monteiro. O filme começa com Márcia Pantera, drag cuja marca registrada é o bate cabelo e a dança enérgica, na noite há mais de 20 anos.

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Pantera afirma que as drags de hoje estão tomando “leitinho quente”. “A Márcia surge no início do filme justamente para trazer essa informação. Essa ideia de que tudo que vocês estão vivendo hoje em dia teve luta por trás. Muitas pessoas precisaram ralar para que hoje você possa simplesmente se montar, sair na rua e quebrar tudo sem sofrer nem um tipo de violência. Muito pelo contrário, hoje a drag é uma figura atraente na noite. Hoje em dia se montar é status.”, diz João.

Na sequência, marcando a transição de uma figura consagrada para as novatas, somos apresentados ao Trio Milano: Tiffany Bradshaw, Amanda Sparks e Penelopy Jean. Elas representam o início deste novo boom por discotecar in drag na noite paulistana quando as drags não estavam em alta. “Optamos por trazer o Trio Milano logo na sequência da Márcia porque é o trio mais bombado da cena no momento.”, afirma João.

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O filme trabalha também a questão do preconceito com as drags dentro do próprio mundo gay. Penelopy Jean fala sobre como alguns gays não gostam de namorar meninos que se montam. É uma amostra do machismo que atinge, pasmem, o mundo gay com a rejeição de características femininas. “Existe uma supervalorização da masculinidade no universo gay, né? E isso vem caindo por terra pouco a pouco, pois agora a galera tá “sou afeminada e curto mesmo” e chamando isso no peito. Acho super legal. Esse é um movimento que ajudou a quebrar a barreira de lidar com a feminilidade dentro do universo gay.”, diz Monteiro.

A prática drag questiona os padrões estabelecidos pela sociedade no quesito gênero e brinca com eles para criar algo novo. Em drag você pode experimentar esta descontrução, explorada numa das sequências do filme com Amanda Sparks sendo fotografada enquanto se desmonta. É, sem dúvida, uma das sequências que deixam o filme ainda mais interessante.

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Uma curiosidade: o ensaio de Amanda foi feito exclusivamente para o filme, justamente para mostrar visualmente a desconstrução provocada pela arte drag. Para conferir o ensaio na íntegra, disponibilizado com exclusividade pelo fotógrafo Fernando Moraes, é só tocar ou clicar aqui. No link você confere, além das fotos, uma entrevista sobre o processo de produção.

CONTATO COM AS DRAGS

A produtora Karol Bueno, uma das idealizadoras do filme, diz que a aproximação com as drags foi um trabalho de confiança, afinal era necessário que a equipe pudesse entrar na vida delas.

“O momento em que começamos a fazer o documentário, foi o momento em que todo mundo começou a pensar “poxa, legal fazer alguma coisa sobre drag”. Então tinham 500 tccs sobre o assunto e as drags temiam ‘poxa, não sei, será que é tão sério assim?’. Nosso trabalho foi de mostrar o quão sério era o projeto.”, diz João Monteiro. “No fim, foi uma experiência transformadora para todas elas”, conclui Karol Bueno.

BASTIDORES

TupiniQueens é o primeiro filme de Karol Bueno e João Monteiro no cinema. No 23 Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, a bilheteria esgotou antes mesmo do evento começar. Na segunda exibição, no Centro Cultural São Paulo, mais de cinquenta pessoas foram para casa sem conseguir assistir ao filme, pois os ingressos esgotaram em 15 minutos. Assisti ao filme no MIS (Museu da Imagem e do Som) com a performance de Malonna e Kelly Caramelo, personagens presentes no filme.

Apesar do sucesso na exibição, o processo de produção foi árduo e cheio de surpresas. A primeira filmagem foi feita na primeira festa Priscilla, quando Shangela e Yara Sofia vieram. “Foi difícil entrar naquele lugar. Os produtores só nos deixaram filmar a festa. E ai, nos infiltramos no camarim e roubamos uma entrevista da Shangela. A partir dali, eles entenderam a seriedade da proposta e nos deram mais espaço”, diz João.

 

“As drags de hoje estão tomando leitinho quente!”

 

“Sempre que vejo o trecho da Shangela me emociono, pensando, ‘cara, começou tudo ali e podia não ter rolado nada disso’ ”, diz Karol.

O clima de bastidores nas entrevistas com as drags gringas, ex-participantes de Rupaul, é um ponto alto do filme. São imagens inéditas, intensas e verdadeiras, captadas em um momento mais íntimo. “Esse tipo de imagem, esse tipo de abordagem mais intimista, ninguém fez nem nos EUA. Ninguém nunca entrou em um camarim com a Raja e ficou conversando, falando, fumando um cigarro, captando esse tipo de imagem.”, comemora Monteiro.

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João revela que a festa Priscilla em que Alaska se apresentou foi a mais difícil de todas, principalmente por conta de atrasos. Não conseguiram gravar a artista enquanto ela se preparava para o Meet&Greet, algo que aconteceu com as outras drags. “Fomos filmar as cinco da manhã, depois de todos os shows, depois de tudo. Ela já estava de saco cheio, querendo ir dormir. Já estava todo mundo super cansado”, diz o diretor. Apesar disso, o momento de exaustão gerou um dos trechos mais curiosos e interessantes do filme. A autorização de uso de imagem foi dada por Alaska no próprio vídeo e o trecho está presente no filme. “Eu sempre pegava a autorização no começo. No fim a autorização foi em video mesmo e a gente achou interessante.”, diz Karol.

A ideia do documentário surgiu após o contato com Rupaul’s Drag Race, revelou Karol. “Conversamos ‘Vamos fazer um documentário? Vamos fazer um longa? VAMOS!” E foi. Na base de muita conversa, foram noites e noites para discutir o roteiro, o que seria apresentado, o que queríamos mostrar com tudo isso. Em relação à fotografia, confiávamos no trabalho do Jô (João Monteiro), mas a gente queria ir a fundo e ter o que falar”, diz Bueno. “Não queríamos ser somente um banquete visual, mas ter conteúdo sério. O mais legal é ver drag nos dizendo ‘o filme de vocês me representa’. Ouvi muito isso. A gente conseguiu.”, diz João.

PERSONAGENS

Para o filme funcionar em sua totalidade, os personagens escolhidos foram muito importantes para criar a atmosfera e o retrato ideal do momento em que vivemos. Malonna, por exemplo, é a personagem mais interessante e marcante de todo o longa, abordando a história drag e as questões políticas e mais complexas que envolvem o assunto. A participação de Malonna é o momento de aprofundamente da trama, o momento do mergulho na cultura drag como causa social e luta de representatividade LGBTI. “A Malona é unanimidade. Em todas as exibições as pessoas se manifestavam. Ela tem frases marcantes.”, diz Karol.

É Malonna também quem introduz uma figura importante para o modo antigo de fazer drag: a Mãe Drag. Se antes a figura da Mãe era algo mais forte, aquela pessoa que te introduzia na arte drag e ensinava a se vestir, costurar e maquiar, hoje temos os tutorais no YouTube e os grupos no Facebook. Apesar disso, figuras drags maternas ainda existem. Vide Malonna, cuja história envolve Kelly Caramelo, sua “filha”.”A Kelly entrou no filme para podermos arredondar esse papo sobre mãe drag”, diz João.

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Outro personagem forte na história é Ikaro Kadoshi, cuja performance de ‘And I Am Telling You I’m Not Going’ é uma das mais arrebatadoras que já presenciei na vida. Estive na edição da festa Priscilla em que ele apresentou esta música e foi algo surreal. Felizmente, o registro também está em TupiniQueens. Ikaro é ator e um artista que se entrega completamente nas performances, vivendo sua arte da forma mais intensa. E o filme consegue transmitir esta essência. “Ele carrega isso que é levar para o lado artístico total, é um ator, e respeita as tradições dos bastidores, a seriedade da coisa. Ele é um idolo”, diz João.

Gloria Groove e Lorelay Fox, também personagens de TupiniQueens, vivem um momento de crescente em suas carreiras. Não somente por aparecer no filme, mas pelo excelente trabalho que produzem. Ambas estão na atual temporada de Amor&Sexo, programa de Fernanda Lima na Globo, levando a cultura drag para o mainstream e discutindo questões de representatividade em horário nobre.

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Gloria é cantora, lançou um single recentemente e em breve lançará videoclipe, dirigido por João Monteiro, e um EP. Fox possui um canal no Youtube e fala sobre temas importantes e complexos para o universo LGBTI, sempre com bom humor e graça. “Mais do que a gente usar todo esse universo e essa popularidade das drags, conseguimos abrir também caminhos para alguma delas”, diz João.

TupiniQueens acerta ao humanizar personagens drags, contar suas histórias e registrar este momento histórico que a cena brasileira e paulistana vive. Acerta também ao não falar de drags já consagradas como Silvetty Montilla ou Thalia Bombinha. Acerta por construir uma narrativa intensa e arrebatadora em que as drags gringas, mais famosas, permanecem em PB enquanto nossos talentos tupiniquins são explorados em cores vibrantes. Acerta por apresentar uma fotografia cuidadosa, limpa e objetiva. Acerta por mostrar como a cultura drag está deixando de ser marginal, se transformando em algo pop e invadindo o mainstream. TupiniQueens acerta por conseguir capturar o espírito do momento e emocionar contando grandes histórias.

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E se você ainda não viu, está esperando o que!?

EXIBIÇÕES

As sessões abaixos foram confirmadas pela produtora do filme, Karol Bueno. Para mais informações, acesse a página do filme no Facebook.

17/02, quarta-feira, às 20h. CineClube Fradique. São Paulo – SP.
20/02, sábado, às 19h. Cine Olido. São Paulo – SP.
24/02, quarta-feira, às 20h. CineClube Fradique. São Paulo – SP.
10/03, quinta-feira, às 18h20. CineClube Laerte (Cine Arte UFF). Niterói – RJ.
17/03, quinta-feira, às 20h. Polo Avançado do Sesc. Araçatuba – SP.
19/03, sábado, às 22h. CineClube Lumiar. Franca – SP.
24/03, quinta-feira. CineClube Catavento/MIS. Campinas – SP.
14/05, quarta-feira, às 19h30. Cinemateca de Curitiba. Curitiba – PR.

CURIOSIDADES

  • O filme produzido ao longo de um ano.
  • A cena que encerra o filme, durante os créditos, é de um personagem ficcional, representando um batismo drag. O ator possui 16 anos e se montou pela primeira vez.
  • O documentário seria costurado por uma história ficcional, mas esta ideia foi deixada de lado durante a produção.
  • Lorelay Fox foi uma das primeiras drags a ser entrevistada, muito antes do boom de seus vídeos no YouTube. Sua participação no filme mostra uma evolução da personagem, saindo do interior de São Paulo e conquistando o mundo.
  • A performance do Trio Milano durante a festa Priscila, na Blue Space, foi a primeira performance das artistas na casa de shows, famosa por apresentar as melhores drag queens de São Paulo.
  • Drag Queens que aparecem no filme: Amanda Sparks, Gloria Groove, Ikaro Kadoshi, Lorelay Fox, Malonna, Marcia Pantera, Penelopy Jean, Samantha Banks e Tiffany Bradshaw. Adore Delano, Alaska Thunderfuck 5000, Latrice Royale, Milk, Raja e Shangela.
  • Arrancaram as unhas da Alaska durante sua performance na Priscilla!


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