logo

O calor arretado das heroínas Mayara & Annabelle

Mayara & Annabelle Vol. 2 marca a expansão do universo mágico de Talles Rodrigues e Pablo Casado

mayara&anabelle_destaque

Em Mayara & Annabelle Vol.1 vimos Mayara Sousa abandonar terras paulistas para sobreviver em Fortaleza na companhia de Annabelle Feitosa. Juntas enfrentaram o Alma Sebosa, que ameaçava a tranquilidade dos domínios da SECAFC-CE, sem saber que uma conspiração muito maior acontecia nos bastidores.

No Vol.2, Pablo Casado e Talles Rodrigues voltam para aprofundar a mitologia de seu universo e focar em Annabelle Feitosa. Desta vez, a trama principal envolve o coronelismo do mundo mágico cearense e mostra Catarina Ramos, a vilã da vez, quebrando O Acordo e querendo dominar as famílias da região a pulso.

Um dos trunfos da HQ é a abordagem de temas importantes com um clima leve e bem humorado. Acompanhamos as aventuras das protagonistas enquanto passamos por um contexto de coronelismo e críticas à burocracia do setor público.

Outro elemento importante da história é o contexto nordestino, cuja riqueza cultural e de vocabulários transbordam das páginas criando uma identidade marcante. É esta identidade que faz o leitor criar laços fortes com os personagens e querer saber mais sobre esse universo tão particular.

Tais laços vem sendo construídos desde o Vol. 1, quando o público ficou ansioso por uma continuação. Mayara & Annabelle Vol. 2 foi financiado coletivamente por fãs e entusiastas de quadrinhos, mostrando que existe espaço no Brasil para histórias independentes e focadas na realidade nacional.

O protagonismo feminino, que vai das heroínas à vilã deste volume, é outro ponto interessante. É ótimo ver personagens femininos bem construídos e transbordando verdade. Mayara, Annabelle e seus amigos são figuras tão bem construídas que poderiam existir no nosso mundo, poderiam ser alguns dos nossos amigos, daqueles que a gente mantém num grupo do whatsapp para marcar encontros e falar amenidades. Aliás, o humor contemporâneo e repleto de referências digitais é a cereja do bolo.

mayara&anabelle_aberto2

O roteiro deste Vol. 2 está ainda mais afiado, pois retoma elementos apresentados no Vol. 1 enquanto os amarra com referências nerds. Para quem gosta de acompanhar boas histórias, é um prato cheio, pois é notável a habilidade de Pablo e Talles de, calculadamente, nos apresentar os elementos deste novo mundo, e as complexidades presentes nele, sem esgotar a narrativa.

Os traços de Talles estão mais vivos neste volume, como se ele estivesse mais à vontade para expressar a vida das personagens. As cores da capa, feita por George Schall, e das artes internas dão aquele toque final que faz qualquer amante de quadrinhos permanecer por longos minutos na mesma página.

Embora o Vol. 2 seja focado principalmente em Annabelle, seu passado e o contexto da comunidade mágica cearense, o leitor é colocado na pele de Mayara, que também só descobre todos os babados enquanto a história vai se desenrolando. É um recurso narrativo valioso e bem utilizado pelos autores.

O mais legal de Mayara & Annabelle Vol. 2 (apesar deste texto não dar muitos detalhes sobre a trama) é o potencial de continuação que a história possui. Muitas perguntas foram respondidas, mas muitas tantas ainda precisam ser respondidas, o que mantém a chama acesa. É definitivamente uma história que diverte e envolve enquanto te faz mergulhar num universo completamente novo.

Agora pegue tudo o que eu disse acima e vá ler os dois volumes, caso não tenha lido nenhum deles. Garanto que não vai se arrepender, viu?!

Confira abaixo uma entrevista exclusiva com Pablo Casado e Talles Rodrigues repleta de curiosidades da produção, além de alguns spoilers e novidades sobre os volumes 3 e 4. Sim, teremos mais Mayara e Annabelle!

mayara&anabelle_aberto1

Poderiam falar um pouco da experiência de vocês com o mundo dos quadrinhos?

Talles Rodrigues: Eu sempre li muitos mangás e sempre desenhei, daí os rabiscos em cadernos foram progressivamente evoluindo pra quadrinhos publicados. primeiro com o Pânico no José Walter, depois com o convite do Pablo pra desenhar Clube dos Monstros dos Bairros Distantes, e agora com a Mayara & Annabelle. Entre essas coisas, muitas tirinhas pro tumblr, zines e coisas assim.

Pablo Casado: Eu comecei a colecionar quadrinhos aos 12 anos (apesar de ter lido bem antes com a  Turma da Mônica e Disney), que foi quando disse pra mim mesmo que, um dia, trabalharia com aquilo. Corta para quase dez anos depois, quando começo a escrever meus primeiros roteiros para HQs curtas com um grupo de quadrinistas aqui de Maceió. Passam-se mais dez e estou terminando o roteiro da minha primeira graphic novel, Sabor Brasilis, contemplada pelo ProAC e publicada pela Zarabatana Books. E hoje estou metido com Mayara & Annabelle e outros projetos.

Quais são as referências para esse trabalho?

Talles: Acho que juntei num pacote todas as coisas de animes e mangás que eu já vi, Scott Pilgrim, a experiência de morar em Fortaleza e lidar com serviço público, Buffy e todas as protagonistas femininas que eu amo e o resultado foi Mayara & Annabelle!

Pablo: Muito do humor e comportamento das protagonistas eu extraí do meu cotidiano. Já a ação meio louca veio de Kill la Kill, um anime que eu havia assistido meses antes de começar o roteiro e impregnou minha mente. É um desenho protagonizado por mulheres que, entre outras coisas, tira sarro do fan service da animação japonesa.

Quais as inspirações para as personagens principais?

Talles: Elas são meio que uma mistura de vários amigos e amigas, junto com temas clássicos de histórias de ação e magia. A Mayara e a Annabelle são meio que a síntese de tudo que eu gosto e tudo que eu gostaria de ver em personagens de ficção.

Quais os desafios de fazer quadrinhos independentes no Brasil?

Pablo: De uns 10 anos pra cá, houve uma facilitação pelo barateamento de alguns custos na produção. Quando eu comecei, fazia fanzine xerocado em papelaria. Hoje, com alguns meses juntando grana, você pode rodar uma pequena tiragem de uma publicação sua de qualidade e cobrar um preço que te dê um mínimo de retorno – provavelmente para financiar o próximo trabalho. E tem a internet, é óbvio. O principal problema continua sendo a distribuição. A logística e o custo para um autor independente ainda são complicados.

A semelhança, tanto em roteiro quanto em arte, com Scott Pilgrim é uma maneira de alcançar um público que gosta de cultura pop?

Talles: Acho que é mais uma prova de que Scott Pilgrim me alcançou! =P Eu admiro muito o trabalho do Bryan Lee O’malley e eu sou meio obcecado pelas obras dele. Tanto eu como o Pablo nos divertimos muito fazendo essa HQ, e acabou tendo essa pegada Scott Pilgrim por causa das nossas referências, mas a gente estava fazendo tudo “de boas” demais pra pensar em algo calculado pra alcançar público x ou y.

12038324_1475843259388354_3943730200939575707_n

Quais os planos futuros para essa HQ?

Talles: Não é intenção da gente parar de escrever M&A tão cedo. temos várias ideias para futuras histórias.

Quais vocês acreditam que são os aspectos mais importantes da obra?

Talles: Garotas maravilhosas derrotando monstros com espadas e magia, e depois indo beber no bar da esquina em Fortaleza! Acho que isso =P

Pablo: Ter protagonistas femininas com as quais as leitoras (e leitores, por que não?) possam se identificar.

Qual a importância de colocar elementos regionais na história?

Pablo: A resposta é bem clichê, mas é a verdade: o Brasil é muito grande e tem tanta diversidade que é legal sair do eixo com mais frequência. Isso dá diversidade e identidade ao trabalho.

Poderiam falar um pouco sobre o Fictícia e a proposta do selo?

Pablo: A ideia da Fictícia é do Hector Lima, que se apresentou em um momento onde boa parte das pessoas que formam o selo hoje estavam em sintonia após a conclusão da antologia INKSHOT, editada por ele e publicada pela MonkeyBrain Comics. Éramos amigos e/ou conhecidos uns dos outros e pareceu algo natural depois da INKSHOT. Nós queríamos criar algo para publicarmos nossas HQs, coisas relacionadas e, quem sabe, conseguir alguns trabalhos com isso.

Poderiam falar sobre o processo de criação? Como cada um de vocês trabalha?

Talles: Bom, primeiro a gente discute sobre o que vai acontecer na história e vai criando os plots, os personagens, rascunhando a aparência deles e etc. Depois a gente estrutura uma ordem dos acontecimentos. Daí o Pablo escreve. Depois, eu faço uns rascunhos das páginas, os storyboards e passo pro Pablo pra ele dar uma conferida, checar o que funciona e o que tem que mudar, daí eu pego tudo e desenho. Direto no Photoshop mesmo, faz tempo que não desenho no papel.

Pablo: Para facilitar o bate-bola que o Talles falou, eu escrevi o roteiro no Drive. Então ele ia lendo para ver se estava tudo ok e, quando rolava alguma dúvida ou sugestão de mudança, deixava um comentário no trecho específico. Formatação de roteiro de quadrinho não tem segredo, então é sempre a parte mais sem sal do processo, haha.

mayara&anabelle_capas1

Quais foram os desafios, e as delícias, de produzir o volume 2, levando em consideração o sucesso do primeiro?

Pablo: Foi aquele negócio: no primeiro volume estávamos explorando as possibilidades, tentando encontrar um ritmo que nos deixasse satisfeitos pra dizer ‘isso aqui é Mayara & Annabelle’. E lá pelo meio do gibi acredito que chegamos nisso. Então pro volume 2 a ideia era pegar o que deu certo e aumentar o volume, além de cavucar mais no universo e no passado das personagens. Apesar da Annabelle ter se destacado nesse último ponto, já demos algumas dicas do que virá por aí em relação à Mayara.

Como foi a experiência de crowdfunding?

Talles: Essa é a minha segunda vez no crowdfunding, então eu achava que já estava preparado pra correria que ia ser. Mas essa foi uma campanha muito maior e com muito mais apoiadores que a minha primeira, então a trabalheira e a responsabilidade foram maiores. Você tem que estar mentalmente e fisicamente preparado para a maratona que é participar de um crowdfunding. A coisa mais legal do financiamento coletivo é poder produzir com a leveza na consciência de que o público confia na gente, além da satisfação de ver as metas sendo atingidas e de ver o carinho dos leitores pelas meninas.

Pablo: No meu caso, foi minha primeira campanha de financiamento coletivo. E ainda bem que deu tudo certo, porque não sei se conseguiria lidar com a frustração depois de todo o trabalho que tivemos. Sério: se alguém vier te dar conselho e dica sobre crowdfunding e essa pessoa nunca chegou perto de fazer um, mande ela pastar. Você só sabe o rojão que é até meter as caras. Mas, no geral, eu curti. Ter conseguido passar da meta inicial ainda na metade da campanha foi muito gratificante.

Como tem sido a recepção do público com este volume?

Talles: Quem leu adorou. A recepção está sendo ótima e a cobrança pelo vol 3 está ainda maior que a cobrança pelo vol 2! Foi muito legal ver que as pessoas entenderam, embarcaram e curtiram a proposta de M&A. Eu não podia estar mais feliz em relação a isso.

Pablo: O volume 2 reforçou uma coisa bacana que rolou com o 1, que foi a paixão de parte dos leitores pelas meninas. Eles elogiam os temas, a brasilidade da HQ, mas quando falam das protagonistas dá pra perceber uma relação bem especial. E o gibi se chama Mayara & Annabelle, então se a reação tem sido essa, estamos no caminho certo.

mayara&anabelle_capas2

Ao reler o Vol.1 pude perceber como as duas histórias estão amarradinhas e ultra conectadas. Quais os planos para um Vol. 3. e 4?

Pablo: O volume 3 fecha o caso no sertão e mostra um pouco do passado da Annabelle, o que a levou para Fortaleza e ser desse jeito. No 4 vai ser a vez de explorar mais a Mayara e… bem, é só isso que posso adiantar. Os leitores curtiram um bocado o final do 2, e a ideia é fazer o mesmo no 3 e no 4, então não vamos estragar a surpresa de ninguém.

Em termos de representatividade, qual mensagem vocês desejam transmitir ao dar destaque ao universo feminino, LGBTI e nordestino?

Talles: Eu não sei bem se existe uma mensagem clara que a gente pretende transmitir. O nordeste, as mulheres e o universo LGBTI presentes na HQ são parte da minha vida e da vida do Pablo. A gente tira das nossas experiências pessoais pra escrever sobre as meninas. Mais do que uma mensagem específica, a nossa tentativa é de, já que vamos escrever sobre essas personagens que, ao nosso ver não poderiam ser de outro jeito, fazer da melhor maneira possível. Claro que isso gera identificação, pois esses são grupos que não costumam ter muito destaque na cultura pop, mas, se depender da gente, vai ter sim.

Pablo: Nem preciso acrescentar nada, né?

Por fim, vocês estão trabalhando em outros projetos e gostariam de falar um pouco sobre eles?

Talles: Por enquanto minha vida é só Mayara & Annabelle =P Estamos produzindo o vol 3 e não vejo a hora de poder começar a desenhar.

Pablo: Mayara & Annabelle Volume 3 toma muito do meu tempo livre, mas tenho algumas coisas que quero fazer mas nem sei mais quando vão sair.

SPOILER ALERT

12348129_1492930671012946_5692057708108738890_n

Veremos o Subsecretário da SECAFC-SP novamente?

Talles: Ah, mas verão mesmo. Talvez não no volume 3, mas logo, logo.

Pablo: O retorno dele vai ser ‘o’ evento.

Conheceremos um pouco mais das outras famílias do interior do Ceará?

Talles: Sim, é sobre isso que será o volume 3.

A grande pergunta: Quem é o noivo de Annabelle? Qual o poder e influência dele?

Talles: Ele é uma parte muito importante do background da Annabelle. O babado é fortíssimo, e a gente vai contar tudo no volume 3!


Para comprar Mayara & Annabelle Vol. 1 e 2, clique aqui.

Fotos: Celina Filgueiras e Divulgação.


gostoudotexto



| Crítica, Entrevista, Mayara & Annabelle