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RuPaul’s Drag Race – 8X02: Bitch Perfect

Oito anos depois e RuPaul ainda sabe como deixar seus espectadores completamente arrebatados

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Recentemente o editor aqui do site, Isaque Criscuolo, mandou para mim o link de um vídeo onde uma drag brasileira fazia duras críticas a RuPaul’s Drag Race. Os comentários do tal vídeo já adiantavam que a função dele era “desmascarar um sonho”, acabar com a ideia de que o programa tivesse grandes benefícios para a sociedade ou para a mídia gay. Nem preciso discorrer sobre o quanto essa iniciativa é um desserviço para a comunidade drag e o quanto parece um gol contra inexplicavelmente proposital. O fato é que o vídeo se apoia numa ideia de que o programa é nocivo e prejudicial para quem entra nele.

Vamos esquecer aqui de todas as ex-participantes que estão rodando o mundo fazendo caixa, vamos esquecer de algumas que entraram para a história da cultura pop (sim, porque algumas fizeram isso), vamos esquecer o status de estrelas que as perseguem em setores que antes as marginalizavam… Vamos esquecer, principalmente, que quem faz a história de alguém num reality show é ele mesmo e que a edição só se deleita com material porque ele existe. Vamos admitir, por um instante, que haja alguma culpa no reality por expôr suas participantes… Assistindo esse FANTÁSTICO episódio 2 da oitava temporada, fica muito claro que só se molha quem decide entrar na chuva.

Espero imensamente que o LogoTV mantenha os quinze minutos adicionais no tempo dos episódios, porque a grandeza de detalhes e envolvimento aumentam notoriamente. Esses quinze minutos fazem toda diferença e podem ter sido uma falha no planejamento do ano passado. Talvez, inclusive, tenham sido os quinze minutos a mais que proporcionaram uma proximidade com algumas das meninas que já tornaram possível dizer que a oitava temporada tem um elenco bem mais promissor que o da sétima. E foi esse elenco que se comprometeu nessa semana, pro bem e pro mal. Foi ele quem entrou na chuva para diversão ou para indisposição.

A justa eliminação de Naysha só foi lamentável para ela e para Cinthya. Não precisou de muito tempo no ateliê para que essa despedida fosse esquecida. Logo Ru estava de volta para um daqueles desafios onde as meninas se fantasiam e dançam de modo exagerado enquanto Ru vende mais um single. É o tipo de mini-challenge encomendado para duas ganharem, o que antecipa o tão esperado primeiro desafio em grupo, em que as personalidades vem mesmo à tona e passamos a conhecer melhor cada uma delas.

A sala de edição do show teve sorte, havia um bom ponto de tensão em cada um dos grupos. No que foi comandado por Chi Chi, ela mesma era o foco e quem estava encomendando essa posição atende pelo nome de Acid Betty. É bem curioso… Geralmente participantes limitadas resultam em participantes recalcadas e isso vira material para edição. Há também as participantes promissoras que se afundam pela própria vaidade e isso também vira material para a edição. Qualquer um que se inscreva já sabe, sem dúvida, que tudo que disser e fizer vai ganhar uma lupa e se espalhar pelo mundo e que, por isso mesmo, precisa contar com o próprio bom senso e não com a piedade do editor. Ele está ali para fazer chover, a obrigação de usar um guarda-chuva é sua.

Betty não usa nem um guarda-chuva de frevo… Se ela tiver a cara-de-pau de culpar a edição por qualquer má reputação, estará sendo oportunista. Seu comportamento com Chi Chi foi lamentável. Ela atacava deliberadamente, tentava enfraquecer a liderança da própria colega de grupo, numa estratégia que rende dezenas de ótimos frames, mas que tem seu preço. Chi Chi segurava a onda, mas não foi nada fácil. Ainda bem que temos Thorgy para desvendar Betty nas entrevistas a cada mínimo movimento dela, rsrrs.

Do outro lado estava Kim Chi, que desde a semana passada dá sinais alarmantes de que não sabe nem andar de salto. Como o desafio principal era muito focado em coreografia, a situação dela era muito preocupante. RuPaul encomendou um desafio parecido com o desafio das aeromoças visto na temporada anterior (um dos poucos que foi bom) e que se apoia completamente em lipsync, mantendo as coisas dentro da proposta e admitindo que algo como o épico RuSical só seria possível novamente com boas cantoras nos grupos.

Os ensaios do grupo de Chi Chi eram sabotados por Betty (que depois reivindicava créditos pelos sucessos) e nos ensaios do grupo de Cynthia, Kim Chi lutava para não atrapalhar ninguém. Aqui precisamos sublinhar o que ficou conhecido como Lei Adore Delano: você pode não saber dançar NADA e ter umas roupas totalmente cagadas. Mas, se tiver personalidade e souber atuar, consegue escapar da eliminação. O contrário também vale e se você tiver roupas lindas e um visual matador, mas for uma ameba, ninguém te salva. Então, já ficou evidente que Kim Chi pode se apoiar em personalidade e atuação, enquanto Laila, por exemplo, se encolhe o tempo todo, numa apatia absurda, que me lembrava Sasha Belle a cada instante em que aparecia na tela com aquela cara de “não sei o que estou fazendo”.

Dax também não estava indo bem nos ensaios. Diferente de Kim Chi, não demonstrava dificuldades com passos de dança antes, mas começou a travar e perder a confiança. Com isso, eram três meninas inseguras que começavam a desenhar o bottom. A questão é que Kim Chi já estava entendendo que precisava se apoiar no carisma, enquanto Laila e Dax se mantinham no campo do delusional, aquele campo onde ficam se repetindo em looping que são maravilhosas e fierces, quando na verdade estão sendo negligentes consigo mesmas.

Então, quando estão naquele momento em que se arrumam e precisam falar um pouco sobre a própria vida, Kim Chi usa a “chuva” para o próprio benefício e se expõe sem medo, com ternura, sabendo que essa é uma chance de justificar para nós aqui fora (e não para jurados que não saberão de nada disso na hora do julgamento), as razões pelas quais ela tem essas limitações. E foi bem interessante ver como uma infância e adolescência de introversão, provocadas por bullying e autocrítica, podem atrapalhar alguém no seu caminho pela expressão. Kim decidiu entrar ali para jogar tudo na roda… A família não saber que se monta, ela ser virgem ainda… Todos tópicos de alto risco e que pela ótica do programa podem ser transformados num monstro. Mas, foi um risco que ela decidiu assumir. Ganhamos nós, que já tivemos uma boa amostra de como bons momentos da corrida ainda são entregues para a audiência.

Esse bloco ainda mostrou Dax assumindo também ter sido gordinha e Chi Chi contando – para o choque das outras – que já foi membro de uma gangue e que o foi para tentar escapar das pressões que colocava em si mesmo a respeito da própria sexualidade. Em todos esses casos, uma drag em especial se destacou nas entrevistas e assim tem sido desde a premiere: Bob. Com um humor escrachado delicioso e observações muito sensatas sobre as outras meninas, Bob teve sempre algo interessante a dizer. De novo, ela, a edição, teve material para aproveitar.

E fomos nós para o desafio… Lucian Piane voltou para perturbar as mentes de todos nós com seu sorriso perfeito e seu ótimo trabalho. A paródia de A Escolha Perfeita foi extremamente elaborada, longuíssima e eu me recuso a acreditar que eles só ensaiaram um dia e meio. O grupo de Chi Chi estava tão insuportavelmente sincronizado que deu nervoso (ela fazendo o pescocinho do gueto de cabeça para baixo foi AMAZING).

Não houve erros grotescos e Kim Chi se segurou no personagem direitinho. Foi realmente muito empolgante, deu vontade de dançar e o principal, de baixar a mixagem de trechos das canções de Ru. Que troço doido de bom!

Na junção de desfile com desafio, as vitórias e fracassos eram óbvias. Kim Chi, além de ter feito um personagem que a salvou no desafio, apareceu com um vestido simplesmente lindo. Ela não sabe mesmo desfilar, isto está claro e logo Michelle vai pegar pesado com ela. Mas, ela está sabendo jogar com as próprias limitações. Já Laila e Dax sumiram na apresentação, esqueceram que era uma comédia e ainda apareceram com roupas enfadonhas, que poderiam ser esquecidas em trinta segundos. Foram para um bottom merecido e regado a Gloria Gaynor que – vamos combinar – não tem como falhar quando defendido por duas drag queens. Bom, não TERIA como falhar…

Nesse ponto o episódio vira história e a catarse vem tão forte que não saltar pela casa é quase impossível. A esperada dublagem de I Will Survive seria um presente para um momento como aquele. A letra conta uma história e é tão representativa para o público LGBT que seria quase impossível errar. Só que Laila e Dax conseguem o impossível e erram tão feio que dá pena, dá vergonha. Foi, sem dúvida, uma das disputas de lipsync mais constrangedoras da história do programa e, enquanto acontecia, eu só pensava: as duas precisam ir embora. Nada além disso seria justo, nada além disso seria meramente aceitável. E não… Não é culpa da edição. Se elas virem suas carreiras irem por água abaixo depois desse vexame, a culpa é delas e de mais ninguém.

É claro que Ru já devia estar pensando numa forma de usar o twist que usou nesse final, mas sempre, sempre, há uma possibilidade de uma menina apática encarnar a Trinity e quebrar tudo. O problema é que ali só havia erro… Dax fazendo carão e não sentindo a música, Laila arrancando o vestido e ficando de roupa debaixo, esfregando-se no chão, num claro ato de desespero… Uma coisa difícil de ver, dura mesmo. As duas irem embora era a única coisa meramente possível de se fazer… E elas foram, numa eliminação dupla que engoliu a de Viviene Piney e Honey Mahogany e já é uma das mais icônicas do show.

E como se não pudesse ficar melhor, fica. Ru pede o telefone de Michelle e encena uma ligação para alguém que ela está convidando para voltar ao programa. A coisa é tão assustadoramente deliciosa que os editores tascam um TO BE CONTINUED na tela e apresentam o primeiro grande cliffhanger da Drag Race. O coração acelera e a ansiedade vai a mil!!

Ainda há alguns dias de espera antes de saber o que Mama Ru pretende com essa iniciativa. Porém, eu aposto em duas coisas: voltar Naysha (Project Runway já trouxe eliminados de volta quando rolam desistências) ou voltar uma ex-participante, o que em termos de mídia seria muito mais eficiente. Se for isso, só posso dizer que meu sonho é ver Shangela competindo novamente, mas acho que somente alguma das retardatárias aceitaria o risco. Também pode ser uma das que passou pela seleção e quase entrou, ficando de reserva, ou apenas uma brincadeira de Ru, nunca se sabe. Definitivamente, a revelação desse mistério será determinante para como o público encarará a oitava temporada daqui para frente.

NOTA DO UNTUCKED: As meninas que foram salvas chegaram ao Untucked para falar das outras, é claro. Bob voltou a se destacar com comentários sobre Betty e tiradas de humor deliciosas. Descobrimos também que Cynthia pisou no pé de Robbie durante os ensaios e quase acabou com ela. Dax foi eleita como a possível eliminada. Disseram que seu vestido era feio (e era), sua performance apática (e foi) e que ela não ensaiou os passos (pareceu). Derrick também apareceu um pouquinho ao falar de seu casamento “trigâmico”. Os fãs da Drag Race conhecem um de seus maridos, o rapaz que passou pelo desafio de Makeover ao lado de Alaska, na quinta temporada. Derrick explicou que por serem três não quer dizer que não há comprometimento e que eles todos dormem na mesma cama (impossível não pensar que Britney tem uma canção sobre trios e Derrick está em um trio). Um pouquinho antes da volta para o palco, Bob deu ótimas dicas de lipsync para Laila e ela, é claro, não usou nenhuma. Assim, a saída dela e de Dax foi muito deprimente. As duas estavam arrasadas e com toda razão. Logo que os episódios fossem ao ar, o pior passaria a ser esperado delas. Infelizmente, nenhuma das duas tinham o melhor para dar e isso não é culpa de ninguém. Pessoas adultas e que assistiram temporadas anteriores não podem culpar a “chuva” por terem ficado encharcadas. Tem gente que é impermeável… E tem gente que não.

Untucking:

  • Thorgy insistiu no que queria para a coreografia e conseguiu.
  • E tivemos a tal Shade Tree, que pelo menos na estreia, não funcionou.
  • Morto com Chi Chi achando que a Nova Inglaterra era mesmo na Inglaterra.
  • Incrível ver Dax e Laila sendo arrogantes uma sobre a outra nas entrevistas antes do lipsync e depois sendo péssimas juntas.
  • Toque de mestre da edição liberar a conversinha dos jurados antes do lipsync começar.
  • Até quando Naomi irá para a passarela com seu “peito de homem” sem Michelle abrir um inquérito?
  • Uma graça Bob elogiando Cynthia no Untucked.
  • Aliás, Bob também disse no Untucked que Betty era tão complicada que sem dúvida ainda bateria em algum jurado antes de ser eliminada. Vamos torcer.
  • No depoimento do Untucked, Dax falou sobre a mágoa deixada pelo momento em que Ru as pede para deixar a passarela sem dizer nada de bom (o que ele sempre faz com as eliminadas).
  • Cynthia perdendo o sapato no meio da apresentação <3.

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