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RuPaul’s Drag Race – 8X06: Wizards Of Drag

Bob versus Derrick: alguns são e outros só pensam que são

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De vez em quando eu vejo no Facebook um início de texto começar com a seguinte frase: “precisamos falar sobre…”. Geralmente é um prenúncio de uma colocação séria e tenho visto acontecer com frequência nos grupos dedicados a nossa amada corrida. Isso é um ótimo sinal, significa que estamos mesmo diante de uma temporada que tem trazido tópicos importantes para admiração e para discussão. Defender ou acusar uma participante, num show como esse, sempre reflete aspectos pessoais e comportamentais que enriquecem a experiência do espectador. Rupaul’s Drag Race funciona ainda melhor quando tem coisas importantes a dizer.

Uma das fraquezas do ano passado foi não só a ausência de narrativa definida, mas também de condições para correlações e analogias. Apesar de nesse oitavo ano não termos uma protagonista martirizada como tivemos com Sharon e Jinkx, temos uma pseudodramaturgia muito próxima do ano seis, quando as dinâmicas de segurança e amadurecimento se tornaram os motores definitivos do circuito. Agora, diante das rivalidades entre Bob e Derrick, temos uma importante conversa a travar sobre ser talentosa e arrogante ou ser apenas uma arrogante defendendo um suposto talento. A oitava temporada é a temporada dos que são, contra os que pensam que são.

A edição do sexto episódio já começou estabelecendo o favoritismo de Bob. Isso é importante, porque a competência dele nos desafios é inegável e sua criatividade e esperteza provavelmente lhe levarão até a final. Mas, também é importante sublinhar que quanto mais ele angaria favoritismo, mais insegurança provoca nas outras. De um lado, sua banca de invencível. Do outro, uma torcida pejorativa para que ele se atrapalhe e cometa um erro imperdoável. De repente, ao colocar esse ano em perspectiva, dá pra ver que tudo está dividido entre SER e QUERER ser.

O Time dos que São

Muito falou-se – da semana passada para cá – sobre a arrogância de Bob. Por ela ser negra, não demorou muito para que acusações de racismo se confundissem com a rejeição de parte do público. O shade de Bob não é diferente do shade de nenhuma outra participante conhecida por isso e tal qual aconteceu com elas, há uma corrente de espectadores que passaram a não gostar dele. Assim como teve gente que odiou Raven, Tatiana, Raja, Carmen, Roxxxy e até Bianca. Não tem a ver com cor, mas com ser o tipo de espectador que não reage bem ao jogo de provocações.

Bob, contudo, faz parte do time dos que são. Junto com ele estão Thorgy, Kim Chi e Naomi . Nessas três últimas citadas, há um equilíbrio de shade e autoconfiança. O que acontece com Bob é que esses limítrofes ficam indecifráveis. Bob é uma pessoa de extremos, então, suas demonstrações de talento são acompanhadas por doses cavalares de pretensão e petulância. Como todo ser humano, ele tem várias camadas, mas é papel do espectador escolher para qual vai olhar com mais atenção. O problema é que em realities show a jornada do “underdog” sempre funciona melhor e desde que começou a vangloriar-se de si mesmo sem medidas, Bob passou a colecionar alguns haters. Muitas vezes a arrogância não é mesmo uma coisa bonita.

O Time dos que Pensam que São

Derrick Barry também é outra figura controversa dessa temporada. A chancela de Britney Spears lhe protege de muita coisa, isso é bem verdade. No fundo, entre os defensores de Barry há uma vontade de que ele aconteça, de que ele consiga se provar, já que é quase impossível não torcer por alguém que trabalha tão bem personificando Spears. Porém, Derrick está no time dos que não aceitam as próprias limitações e ficam dando desculpas para si mesmos e para os outros. Ao lado dele estão Chi Chi e Robbie. O trio tem momentos de força e talento, mas deixam de crescer com as próprias falhas por não aceitarem a existência fundamental delas.

Wizards of Drag foi um episódio cheio de exemplos de tudo isso que estou falando. Com o elenco de Little Women LA participando do desafio do Makeover e muito pouco tempo para executar tantas tarefas, os participantes travaram uma verdadeira guerra fria. Assim que Bob ganhou o clássico minichallenge da “leitura”, começou a torcida para que ele afundasse. Ao mesmo tempo, assim que abraçou essa vitória, a própria Bob começou a pecar pelo excesso de autoconfiança. Dai até a eliminação, foi um caminho interessante na jornada de quem foi para a Drag Race somente achando que poderia ser o que – talvez – ainda não esteja preparado.

As participantes de Little Women LA puderam elas mesmas escolherem suas “madrinhas” e cada uma invocaria um personagem de O Mágico de Oz. Na história da Drag Race, os desafios de Makeover foram importantes para mostrar se a participante era capaz de cuidar de outra pessoa além de si mesma, respeitar o desafio e ao mesmo tempo sobressair-se. Geralmente os erros mais comuns são esquecer de proteger o convidado ou não ter habilidades para fazer algo para si e para uma pessoa com dimensões completamente diferentes. Criatividade e ousadia são essenciais para superar esse desafio.

No ateliê, a edição não foi longe no acompanhamento da construção dos looks. Havia um casting inteiro de pequeninas mulheres para explorar e diante daquele inusitado encontro de minorias, ouvir o que elas tinham a dizer era fundamental. As conversas foram interessantes nesse sentido, estabeleceram uma verdade única acerca desses caprichos da natureza, que tornam pessoas diferentes parte de uma sociedade que deseja sempre o previsível. Uma pessoa não pode mudar o tamanho que tem… Nem pode mudar a própria sexualidade. Dentro de seus mundos de concessões e desajustes, eles se entendem.

Perto do desfile, lá estava Bob (aquele que é) percebendo que só tinha 15 minutos para montar a si mesmo, já que cometeu um erro com a primeira roupa e se dedicou totalmente a sua “afilhada”. No pouco tempo que tinham pela manhã, ele precisou refazer tudo. Do outro lado, Chi Chi Devayne (aquela que pensa que é), terminou de colar sua básica roupa inspirada em Dorothy e não usou o tempo extra para incrementar nada. Eram dois opostos, duas forças cheias de orgulho e vaidade, mas completamente diferentes no impulso. Como o resultado do desfile mostrou, Bob consegue em 15 minutos ser melhor que Chi Chi , que terminou tudo com algumas horas de antecedência.

Correndo por fora disso tudo, uma Naomi DESLUMBRANTE chegou para o desfile dando um tabefe na cara das meninas que saem do bottom dizendo “semana que vem eu vou arrasar” e não arrasam porcaria nenhuma. Ela foi a única que traduziu o desafio PERFEITAMENTE. Eu cheguei a ficar sem ar, tamanha a inteligência com a qual ela colocou aqueles dois looks na passarela. Com um desafio apenas, Naomi passou do grupo que pensa ser, para aquele que é. Provou com categoria que pode sim ser mais que um par de pernas desfilando com panos esvoaçantes. Foi um primor, um verdadeiro primor. E o melhor? Ela fez bonito na frente de Marc Jacobs.

O desfile deixava MUITO evidente essa divisão de grupos da qual falei. Enquanto Naomi, Bob, Kim e Thorgy tinham um conceito claro e vieram com looks trabalhados (Bob errou em si mesmo e não em Elena), Chi Chi colou um corpete e fez uma franja que parecia papel crepom, Derrick enrolou um pano da cintura e disse que “costurou uma saia” e Robbie amarrou um pano no corpo e jogou tudo que era marrom e dourado em cima dele. Nenhuma das meninas consideradas mais fracas na competição aplica de verdade nos desafios, todo o discurso de maravilhas que ficam sendo prometidas o tempo inteiro. Eu realmente gostaria de ver Derrick e Robbie indo bem na competição, mas chega a ser jocoso a forma como ambos se recusam a aceitar as próprias falhas (Derrick não é criativo e Robbie nem a peruca arruma direito) . O bottom foi merecido e a essa altura, o lipsync já era previsível.

Derrick ia esmagar Robbie e não havia outro resultado possível. Robbie perdeu a peruca logo cedo e isso já é frustrante. Desmontar a drag no meio da performance é algo que deixou de comover pessoas lá nos anos 90. Além disso, Miss Turner faz uns movimentos estranhos com os braços que parecem um “ok” do manobrista quando você precisa sair de uma vaga. É perturbador. Derrick encarnou Britney e mandou sensualidade e movimentos seguros para todos os lados. A emoção dela, pela primeira vez, me pareceu verdadeira. Muito porque sua luta para sair da Britney Box é visível e poderia provocar mais empatia do público se fosse vista sem as declarações delusionals que ela insiste em jogar nas entrevistas.

Assim, Robbie foi embora de modo justo. Mas, tirando suas constrangedores desculpas inventadas na hora das críticas, ela fez uma boa passagem pelo show.

NOTA DO UNTUCKED: Essa semana não tivemos nenhum depoimento no Untucked, que se dedicou a mostrar como Derrick, Robbie e Chi Chi estão na sintonia errada da competição. Eles enfim, conseguiram o que queriam e Bob recebeu críticas negativas suficientes para pensar em acabar dublando. Mas, ver Derrick achando que aquilo que tinha no corpo poderia ser chamado de “costura” era extremamente irritante.

Acreditar em si mesmo é importante, mas aquela cegueira já poderia ser chamada de patológica. Chi Chi assumia que tinha colado tudo, mas estava igualmente alienada em pensar que o que vestia estava no nível da competição. Não dá pra saber se elas realmente acreditam no que dizem ou apenas disfarçam preguiça com prolixia. O fato é que quase todo mundo acertou o bottom e esse episódio de bastidores acabou mesmo tomado dessa inadequação conceitual que provavelmente colocará essas meninas para fora.

Será uma pena… Eu realmente gosto de Chi Chi e queria ver Derrick ser eliminada tendo se saído bem de verdade pelo menos em alguma coisa. Tenho até uma certa simpatia por quem não compreende as próprias limitações e vive num mundo particular de autossuficiência. A questão é que acaba ficando triste e patético ver Derrick competir com Bob enquanto não tem nem metade das habilidades de seu rival. Então, se essa é a temporada dos que pensam que são, contra os que são de verdade, temos um belo Top 4 pela frente.

E aí? Bob, Thorgy, Kim ou Naomi? Quem aí nesse meio tem pose de superstar?


gostoudotexto



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  • André Luis

    A confiança de Bob me deu medo assim como em Bianca!mas essa soube medir. AMO Bob e acho bom ela ter medos para gerar narrativas. Agora Thorgy está MUITO chata com esse mi mi mi de não ganhar etc. O top 3 infelizmente não terá Bob. Bob is the New Katya