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RuPaul’s Drag Race – 8X08: RuPaul Book Ball

Bob Vs Derrick, Naomi Vs Derrick, Polêmicas Vs Derrick… A oitava temporada de RuPaul’s Drag Race e seu peculiar sistema de rivalidades

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Na hora de falarmos sobre como RuPauls Drag Race influenciou o julgamento pessoal de seus fãs, precisamos deixar de lado a primeira temporada, que ainda não influenciava diretamente seu público. Porém, no segundo ano do show, as narrativas começaram a se desenhar sempre de modo muito semelhante. Numa competição em que o talento é grande parte da matéria-prima do jogo, vaidade e orgulho acabavam servindo constantemente como um perigoso tempero. Quase sempre, as dinâmicas entre as participantes se dividiam entre quem não se afetava pelo sucesso de outra e quem dava atenção demais ao que a outra tinha a oferecer.

Aconteceu várias vezes… Sharon, Jinkx e Violet são os exemplos mais cabais de vitórias perseguidas pela incapacidade de reconhecimento de talento. Enquanto as futuras vencedoras cresciam, crescia junto um desnecessário sentimento de indignação promovido pela inveja e pela intolerância. A arte drag tem seu conceito constantemente privatizado por algumas meninas e essas caem no erro de dizerem o que é certo ou não nessa execução. Incomodadas porque o “jeito errado” alcançou algum êxito, se afundam num poço de amargura que inclui sempre denegrir e invalidar o trabalho da oponente. Phi Phi fazia isso, Kennedy, Ginger, Roxxxy, Detox, Raven e muitas outras. Chegava sempre o momento da temporada em que elas se dedicavam a azedar a própria passagem pelo show com grosseiras observações sobre as favoritas.

A oitava temporada da corrida, contudo, parece abrir caminho numa outra direção. É como ver o sexto ano ser revivido bem de perto. De novo, está sendo privilegiada a intelectualidade, o que imediatamente relativiza julgamentos. Há tramas paralelas acontecendo, mas a narrativa central não é a da vitimização. RuPaul Book Ball só nos mostrou como essas participantes não estão dispostas a serem previsíveis, não querem o papel de algoz, não vão construir sua trajetória com amargura e rancor. Por mais que vaidade, orgulho e inveja as assombre em algum momento, há uma compreensão sagaz de que o foco não é esse, o que já torna a experiência dos episódios ainda mais deleitosa.

Graças a Deus que tivemos um episódio de 60 minutos para distribuir todas essas constatações. A eliminação de Thorgy trouxe uma série de indignações latentes à tona. Tanto as de lá, quanto as de cá, vibravam numa mesma onda: O que raios Derrick Barry ainda está fazendo aqui?

Não é difícil entender… A engrenagem, o sistema do jogo RuPaul’s Drag Race tem uma regra básica primordial: o lipsync determina quem fica, independente de trajetória de jogo. É CLARO que Thorgy é mais talentosa que Derrick, mas Chi Chi foi mais poderosa e certeira no lipsync e por isso ganhou. Derrick foi bem no desafio e isso não pode ser simplesmente ignorado. Thorgy acabou saindo depois de um conjunto infeliz de circunstâncias que já colocou outras meninas ótimas para fora antes da hora (como aconteceu com Dela na Season Six).

O interessante aqui é ver como as dinâmicas mudaram dentro do ateliê após a volta da eliminação. A briga entre Bob e Derrick causou uma separação de torcidas bastante inflamada aqui fora. O excesso de autoconfiança de Bob e suas frases pretensiosas desceram quadrado para alguns. Acho importante dizer que os argumentos sobre racismo tem uma série de pontos relevantes, mas a comparação com outras “drags brancas” da competição não é um deles. Nem aquele que coloca Kennedy como parâmetro, já que Kennedy faz parte do “clube das amarguradas” e foi esse clube que tornou a vitória de Violet um pouco mais saborosa.

Existe na corrida uma infinidade de exemplos de drags brancas que soltaram um shade forte, foram pretensiosas e arrogantes e não foram perdoadas por isso. O que me incomoda na argumentação racial é isso de “Bob agiu igual a outras drags brancas e elas não foram rejeitadas”. Sim, foram. Esse tipo de argumento julga o direito de apenas não gostarmos do temperamento momentâneo de Bob. Ela não é Bianca, não é Raven, não é Raja… Pode-se perdoar uma e não engolir outra e isso não ter nada a ver com raça. Já se a argumentação fosse “Bob errou a mão na prepotência e um monte de racistas jogou ódio na rede”, aí eu ficaria calado, porque colocado assim há uma separação clara entre quem já tinha o ódio na manga e quem naquele dia apenas se decepcionou com uma participante que tem tudo para vencer.

Graças aos deuses do aquenda, essa não é a temporada das impressões chapadas, rasteiras. Enquanto a galeria aqui dizia que Derrick estava sendo protegido “porque era branca”, Bob trabalhava com ela num desafio que mudou sua perspectiva da rival. E olha que lindo: Bob aprendeu mais sobre Derrick, o que fez com que no momento em que uma nova discussão começasse, ela agisse com diplomacia. Naquele momento, após conhecer Derrick um pouco melhor, fez muito mais sentido para Bob parar de julgar o quanto a concorrente merecia ou não estar ali. Uma vez tendo tido essa compreensão, o posto de articulador de verdades absolutas foi passado para Naomi, que entrou numa guerra pessoal contra Derrick lembrando os velhos tempos de Roxxxy Vs Jinkx. A diferença é que Derrick não é nem um pouco parecido com Jinkx e nem de longe pode ser considerado uma vítima. De fato, ele consegue ser tão ou mais agressivo que as outras.

E aí, lá vamos nós de novo… Um desafio que previa três looks e ainda uma coreografia, sem dúvida colocaria Derrick em perspectiva. Ele tem tantas deficiências artísticas que daria um livro (com perdão da pobre analogia). Mas, desde quando a Drag Race é só sobre estar pronto? Há temporadas onde jornadas de amadurecimento foram incríveis. Adore Delano é um exemplo cabal disso. A própria Derrick entende dessa forma e se coloca ao lado de Naomi e Chi Chi como parte de um grupo que foi ali para crescer durante a competição. E mais, ela mesma se pergunta se conseguiu crescer tanto quanto elas.

Atacar o outro é o primeiro estágio da insegurança. O show de fantoches, como acontece todo ano, serviu como válvula de escape e Naomi e Derrick seguiram a tradição de substituir humor por ofensa e humilhação. Duas titãs na categoria. Mas, esse é um ano um pouco diferente e no meio da maçaroca de impulsos negativos, alguma coisa se salvava com certa dignidade. Desse jeito, foi com especial carinho e admiração que assisti Naomi percebendo que não valia a pena desmerecer Derrick com aquela paixão inflamável, porque uma das maiores verdades dessa competição era essa: Derrick quer muito, ele só não sabe como.

Em dado momento desse esplêndido episódio, todas as meninas no ateliê jogam shade umas nas outras. É um momento interessante, porque a coisa toda vai longe, quase no limite do suportável. Mas, no dia seguinte, todas elas recuam, tentam desvendar as outras por uma perspectiva emocional e isso, por si só, relativiza o nosso julgamento. Naomi e Derrick dizem coisas horríveis uma para a outra, mas logo depois dividem o mesmo espelho e se ajudam. Claro que Derrick ainda vai dizer meia dúzia de absurdos delusionals sobre si mesma, mas ela quer, ela quer muito. Naomi só entende e assente. Livre do impulso de pisotear alguém que ainda não consegue se entender com a autocrítica.

E autocrítica é importante, porque Bob mostrou que teimosia não salva ninguém do bottom. Ela já é madura o suficiente para levar uma sacudida e perceber que errou ao não usar o material pedido para a construção do look. Já Derrick ainda não aceitou que seus argumentos para defender suas criações preguiçosas e apáticas são completamente absurdos. Talvez por isso eles tenham entrado numa sintonia inevitável e acabaram juntos na dublagem. Bob é mais criativo, mais esperto e mais talentoso. Porém, ao passar um tempo com Derrick, percebeu que tudo que se precisa no mundo na hora de julgar qualquer coisa é um pouco de perspectiva. Bob agiu com humildade e cautela por todo esse episódio, sem perder humor, sem perder acidez, errando e se enganando. Aqueceu o coração daqueles que tinha decepcionado.

Era óbvio quem ganharia o lipsync. Bob tem uma sensibilidade performática impressionante e Derrick é uma showgirl. E foi um bottom justo também… Kim Chi, Naomi e Chi Chi estavam sensacionais em seus “vestidos literários”. Kim Chi fez uma interpretação da relação com a própria mãe que era de cortar o coração de qualquer um… Havia até uma certa justiça cósmica em termos um bottom entre Bob e Derrick. Era como uma lição para elas… Nem superestimar e nem subestimar.

Enfim, Bob ficou merecidamente. É uma artista incrível, mas tornou o momento da saída de Derrick um momento de constatação. Ali, naquela passarela, jurados e participantes tinham certeza de uma coisa: Derrick queria muito, lutava muito, tentava muito e, por isso, merecia respeito e reverência. Foi o que todos lhe deram enquanto ele saía, num instante da corrida em que o melhor detalhe dessa temporada vinha à tona: não se deve nunca desprezar talento, seja ele qual for e de quem vier. É uma realidade nova para a corrida e um passo de amadurecimento. Entre shades e provocações, esse oitavo ano é sobre respeito. Descoberto aos troncos e barrancos, mas ainda assim, presente.

NOTA DO UNTUCKED: O Untucked foi dividido em dois momentos. O primeiro é impagável… Sem dúvida, o posto de participante mais delusional da história da corrida é de Derrick. Ninguém com o mínimo de bom senso poderia chamar qualquer uma das criações dele de “correta”. É tudo preguiçoso, mal feito e recorrente. Assisti-lo defender aquele look como se ele fosse digno de “estar num museu” chegou a parecer uma pegadinha para mim. Ninguém pode ser tão cego sobre si mesmo daquela forma… Porém, o segundo momento reuniu as meninas num jogo oposto ao do shade coletivo: elas se admiraram, “leram” umas as outras com olhos respeitosos. Foi a hora de reconhecer o crescimento de Chi Chi, a sensibilidade artística de Kim, a virada de Naomi e de vermos Bob resignando-se dos próprios erros com uma honradez notável. Ao final, o Top 5, de mãos dadas, nos proporcionou esse outro momento lindo:

Depois desse episódio, ficou consagrado para mim que a oitava temporada de RuPaul’s Drag Race é uma das mais poderosas, inteligentes e completas que já tivemos a chance de ver. Vinda depois do fracasso da Season 7, ela soa ainda mais especial. Durante os 60 minutos corridos, vimos rivalidades nascerem e morrerem, enquanto cada uma daquelas meninas lutava contra limitações, medos e ameaças, usando o talento como maior escudo. Sim, porque embora arrogante, Bob tem talento. Embora insensata, Derrick tem talento. Embora tímida, Kim tem talento. Embora limitada, Chi Chi tem talento. Embora tão jovem, Naomi tem talento… E foi ele, o talento, que permeou essa temporada deliciosa. Tanto talento que ganhou o spot aquilo que nunca deveria ser perdido entre elas: o respeito. Aquele You’re so Brave dito por Bob enquanto abraçava Derrick é uma síntese do que foi esse ano e do tanto que esse mesmo respeito sustenta a base dessa temporada.

Untucking: É com certa tristeza que já dá pra constatar que teremos dois episódios a menos nessa temporada. Semana que vem teremos a formação do Top 3 (episódio 9), logo depois o episódio da gravação do clipe (episódio 10), depois o recap e em seguida a final. Terminaremos no 12 ao invés do 14. Para uma temporada linda como essa, será uma falta sentida.

Untucking 2: Derrick não se maquia como drag, mas Courtney Act chegou no top 3 fazendo a mesma coisa.

Untucking 3: Muito bom ver Bob num momento de vulnerabilidade (embora por razões muito tristes).

Untucking 4: Será que a mãe de Kim vai aparecer no Reunion?

Untucking 5: A performance musical delas foi AMAZING.


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| Review, Rupaul's Drag Race

  • Bruno Almeida

    Untucking 2: Derrick não se maquia como drag, mas Courtney Act chegou no top 3 fazendo a mesma coisa.

    Pois é, Mas ao contrario a Act, servia ótimos looks. E em diversas silhuetas, se a Derrick tivesse feito Britney all the time, porém executando bem os desafios não seria tão “condenada” como foi e também se ela fizesse bem feito os looks ela não seria tão iludida consigo mesma. Texto bem coerente. 😉

    • Jeferson Huffermann

      E complementando: queens como Courtney Act e April fazem maquiagem que modifica a estrutura do rosto e o deixa feminino. Derrick quase não modifica, senão ele não pareceria com a Britney, o que o assusta bastante. O problema é que a maquiagem que ele usa sem o cabelo e as roupas da princesa do pop fica feia.

  • Que review linda, Henrique! Assim como esse episódio! Amei de paixão ver Naomi indo lá reverter aquela briga com a Derrick, o lipsynch todo emocionado entre Bob e Derrick, o Untucked! com o top 5 de mãos dadas… foi um episódio realmente emocionante. E não só isso, como os detalhes sobre as vidas delas que foram mostrados, os looks maravilhosos da Kim Chi (sério, babei em todos eles)… Um episódio memorável.

    Derrick saiu até mesmo depois do que tinha que ter saído, mas ter chegado até aqui pra proporcionar esse episódio até compensou.

    E de fato o pessoal precisa aprender a diferenciar crítica de racismo e etc. Como você bem disse existe o pessoal que se aproveita pra disseminar ódio, mas existem as críticas fundadas também.

  • Se seguir o padrão estabelecido pela S6, no próximo episódio já é a gravação do clipe, e ao fim dele teremos o lipsync quádruplo eliminando uma queen e formando o top3. No ep10 será o Countdown e o ep11 p Reunited. Mesmo porque o próximo ep se chama The Realness, certamente a música que farão clipe.

  • Jeferson Huffermann

    Que review ótima Henrique! Tô amando essa temporada e a reverência ao talento que está sendo prestada pela edição e pelas participantes.
    Eu tava o David Sedaris diante do look da Kim Chi em homenagem a mãe (de boca aberta). Notaste que a cara dela na foto tava borrada? Ela não deu autorização pro uso de imagem, acho difícil aparecer no reunion.
    Tô curtindo muito essa nova maturidade que o programa parece ter alcançado.