logo

RuPaul’s Drag Race – 8X09: The Realness

Entre duas participantes consistentes e duas que cresceram na competição, RuPaul mais uma vez fez sua escolha pensando no futuro

rupauls_drag_race_8x09_the_realness_kim_chi
A primeira vez que vi uma drag se apresentar, foi numa boate do litoral fluminense do Rio de Janeiro e ela se chamava Monayra Manon. Quando as cortinas do pequeno palco da boate se abriram, não surgiu, contudo, uma drag cheia de glamour e polidez. Surgiu uma persona caricata, desgrenhada e cheia de palavrório chulo. Monayra não era uma ilusão do feminino clássico dessa manifestação artística, mas sim uma comediante travestida, que estava ali muito mais para mostrar sua incrível capacidade de fazer rir.

Essa primeira drag que vi provavelmente seria mais uma das que seriam perseguidas por Michelle Visage, ávida por ver versatilidade. Em todos esses anos de RuPaul’s Drag Race, apenas uma drag muito diferente do que se espera de uma drag conseguiu vencer, enquanto todas as outras amargavam eliminações justamente quando tentavam fazer o que os jurados lhe pediam. “Adapte-se ao que foge da sua zona de conforto, mas não perca-se de si mesmo”… Essa é a grande tarefa quando se participa da corrida e somente aqueles que sabem muito bem quem são, podem transitar por outras formas de expressão artística sem correrem o risco de se diluírem no processo.


Quando colocamos em perspectiva as vencedoras desses sete anos corridos do show, percebemos que Ru sempre mostrou uma preocupação em olhar para o futuro da expressão drag:

Bebe Zahara Bennet: O casting do primeiro ano tinha exemplos de competidoras mais ligadas ao convencional. Ongina e Nina eram um pouco fora dos padrões para a época, mas não eram fortes o suficiente para superar o encanto de Ru por Bebe, uma participante competente, austera e elegante como pouco se vê. Bebe, porém, era quase uma drag totalmente moldada em aspectos visuais conservadores.

Tyra Sanchez: A decisão de premiar Tyra foi polêmica para a época, justamente porque ela competia com meninas muito mais experientes. Foi o primeiro grande movimento ousado de Ru por conta da idade da competidora, embora as características que Ru admirava nela fossem também muito ligadas a um tipo clássico de rainha.

Raja: Competente e muito profissional, Raja era uma a primeira drag vencedora a estar focada em mais do que ser uma drag e sim ser uma expressão artística moderna do que era ser uma drag. Raja não era convencional, previsível.

Sharon Neddles: Aqui sim, vimos Ru decidir premiar uma participante que representava tudo de mais novo dentro do cenário drag. E ao lado dela na final, dois pilares do que era ser drag em essência. Tanto que o All Stars praticamente se forçou a coroar Chad Michaels. Porém, a inquietude de olhar para além do horizonte perseguiu Ru nos anos seguintes.

Jinkx Moonson: Também não era uma drag convencional e tinha uma ambiguidade incômoda, pois se vestia como uma senhora enquanto tinha uma atitude e uma sagacidade totalmente ligadas ao contemporâneo.

Bianca Del Rio: Clássica no look e imprevisível no shade. Bianca não tinha NADA da graciosidade e elegância de uma “rainha”, mas novamente, era na sua inteligência que estava sua grande força.

Violet Chachki: Era um mix de vários critérios: tinha a elegância de Bebe, o senso fashion de Raja e a juventude de Tyra. Uma juventude que novamente apavorou outras competidoras (como poderia vencer alguém que começara a se montar há menos de um ano?), mas que era o olhar de Ru para o que estava adiante.

O que todas as vencedoras desde a terceira temporada para cá tem em comum é uma coisa que se tornou essencial: originalidade. Não adianta ter os melhores looks ou ser a mais engraçada, você tem que oferecer algo SEU que ninguém mais tenha e que seja forte o suficiente para resistir a tantas exigências de versatilidade. Percebem como é quase uma armadilha? Porque aparecer completamente diferente toda semana também não te salva da berlinda. Há de se ver o original em todas as tentativas de adequação.



The Realness foi o último episódio a testar as habilidades das finalistas. Estou sim profundamente descontente com essa temporada reduzida, já que nos anos anteriores, o que vimos acontecer no 8X09 aconteceria no 8X12. Seriam mais TRÊS semanas de competição, três outras grandes oportunidades de conhecer melhor as finalistas. Por tudo que o programa representa pros fãs, por tudo que pode mudar em três semanas, essa redução brutal no número de episódios é sim extremamente frustrante.

A correria foi tanta, que as meninas chegaram prontas na manhã do último desafio e ele foi reduzido à gravação do clipe. Nada daquele processo longo que geralmente leva as meninas a exaustão. Perdemos as cenas entre elas e RuPaul, o clássico “almoço” com a apresentadora e a maratona de coreografias, atuações e defesas. Perder tudo isso na última semana de testes eu considero grave e negligente. O mínimo que poderia ter sido feito era a entrega de um outro episódio de 60 minutos, mas nem isso. Nada que vá manchar a qualidade dessa maravilhosa temporada, mas que entristece fãs que precisaram aturar 14 episódios do ano anterior.



Para apertar tudo em 41 minutos, a edição nos privou de muitos detalhes acerca do último desafio e ficou até complicado avaliar quem tinha ido bem e quem tinha ido mal. Bob teve alguma dificuldade na gravação do clipe, mas errou mesmo na escolha do look e da maquiagem do último desfile. Ter ido pro bottom na semana passada realmente enfraqueceu sua participação, mas ela é a mais preparada para vencer porque reúne mais qualidades de uma vencedora. O mais importante: Bob tem sua marca.

Já falamos bastante aqui sobre Kim Chi e embora ela seja uma deusa dos looks, ela não está preparada para dominar um palco e uma plateia. Há um mundo de inseguranças que ela precisa vencer e sem dúvida a Drag Race vai ajudar. Já Naomi apareceu com as melhores escolhas de look nessa última semana de desafios. As bases do mundo drag podem ser abaladas se outra menina tão jovem for coroada, mas da mesma forma como aconteceu com Violet, Naomi é jovem e tem polidez e identidade. Quando precisou acordar para a competição, aplicou-se às exigências de versatilidade sem perder de vista sua marca e isso sempre foi essencial para as possibilidades de vitória. Além disso, aquelas pernas e aquele desfile realmente merecem todo e qualquer aplauso.


Comecei esse texto dizendo que Ru tomou sua decisão baseada no futuro, porque de todas as quatro meninas, Chi Chi era realmente a menos original. Provavelmente sua vida de apertos financeiros teve alguma responsabilidade nisso, já que sustentar um conceito exige poder aquisitivo. Chi Chi trabalhava com o que tinha, alheia a possibilidade de enquadrar sua drag com mais força no estilo “feito de sobras”, que ela mesma anunciou ao chegar no primeiro dia com um vestido feito de sacos de lixo. Nesse último dia, porém, apareceu na passarela linda, mas toda trabalhada na “pageant queen”. O problema é que se fosse uma pageant queen em material reciclável, poderíamos dizer que estava dentro da proposta da participante, mas não. Era uma pageant queen clássica, coisa que Devayne nunca foi.

Emparelhada com Kim Chi, Chi Chi perde no look e ganha na presença de palco. Contudo, nessa temporada Ru privilegiou a originalidade, o que salvava Kim de qualquer ameaça de eliminação. Sendo assim, Devayne foi embora e formou-se um TOP 3 que definitivamente não é nada previsível.


NOTA DO UNTUCKED: O Untucked foi discreto, tranquilo e apenas uma oportunidade de ouvir um pouco mais de cada uma. Chi Chi insistiu que tinha crescido a ponto de se tornar uma drag que era uma reunião de todas as outras. O nome disso? Escola Derrick de Delusional. Bob contou que fizera uma aposta com Bianca na época da sexta temporada, que se ela ganhasse, daria a Bob 100 dólares e uma peruca, e que Bianca pagou direitinho uma semana depois. Ou seja, Bianca já tem uma preferida, rsrs. As meninas desfilaram, brincaram com a equipe e apenas riram e se divertiram. Um clima diferente dos anos 4, 5 e 7, quando não havia muito respeito por parte de algumas meninas, com relação ao trabalho de pelo menos uma das finalistas. Esse ano foi todo sobre originalidade e respeito, um grande avanço para a dramaturgia do show. Chi Chi também ganhou uma edição especial, o que é completamente adequado para alguém que chegou tão perto e não alcançou o pódio.


Só espero que depois de dar a volta por cima, a corrida ganhe da Logo TV o direito a ter seus quatorze episódios, de preferência com 60 minutos cada um, porque se tem um reality show que merece espaço, reconhecimento e reverência, é esse. RuPaul’s Drag Race não é só sobre a coroação de uma estrela, é também sobre o escrutínio de verdades sobre o homem e a natureza, que nos desafiam cada vez a aceitarmos a beleza da arte e do respeito.

Untucking: Jayson Whitmore, Lucian Piane, Mike Ruiz… Onde Ru encontra esse povo?

Untucking 2: Pobre Chi Chi, editada da versão final do vídeo. Uma pena que a prática foi adotada somente no ano passado, o que salvou Darienne de ser cortada do ÓTIMO Sissy That Walk (pra mim o verdadeiro hino da corrida).

Untucking 3: Bianca aparecendo por um momento rápido e já sendo maravilhosa.

Untucking 4: “Você come cu de gente, qual a diferença de comer cu de galinha?”. Nos debrucemos sobre isso…

Untucking 5: Não vai ter texto do Countdown to the Crown, ok? A não ser que algo muito suculento seja mostrado, aí pensarei a respeito.


gostoudotexto



| Review, Rupaul's Drag Race

  • Guilherme

    Gostei muito do texto! A unica coisa que pareceu estranha pra mim foi colocar a Kim Chi e a Chichi como se ambas estivessem competindo pelo top, quando na verdade, era a Naomi e a Chichi que estavam lutando pelo terceiro Lugar. Já que já temos as estatiticas da temporada, e em todas elas sempre foi o mesmo resultado: as participantes com melhor desempenho (que pode ser medido quantitativamente) vão pro top 3, e a com o melhor ganha. Para isso é só avaliar o histórico: BT2, LOW, SAFE, HIGH e WIN. Atribuindo a pontução de 0 pra BT2, 1 pra LOW, 2 pra SAFE, 3 pra HIGH e 4 pra WIN, e aplicar isso em todas as temporadas, verá que a ganhadora sempre foi a que teve o maior número de pontos, exceto na primeira temporada onde Nina teve pontuação melhor que a Bebe. Nesta temporada, o melhor desempenho quantitativo foi da Kim, porém acredito que como na primeira, a coroa irá para o segundo melhor desempenho por questões que não são medidas quantitativamente.
    Pontuações:
    Bob: 19 (3 win, 3 safe, 1 low e 1 BT2)
    Kim: 21 (2 win, 2 high, 3 safe e 1 low)
    Naomi: 16 (1 win, 1 high, 4 safe, 1 low e 1 bt2)
    ChiChi: 14 (1 win, 1 high, 3 safe e 2 bt2).

    Essas são minhas considerações 🙂

  • Jeferson Huffermann

    Também fiquei meio decepcionado com a edição super rápida do episódio e a redução na temporada, poderia ter feito esse do clipe em duas partes, ter feito um lipsync não sair ninguém, acho estranho terminar uma temporada com 11 episódios. Quero que a Kim Chi ganhe porque como falou um dos jurados, ela representa o futuro da arte drag de um jeito que nenhuma outra o faz, dá até para ver como os olhinhos de Ru brilham ao ouvir isso, espero que ela coroe pensando no futuro mesmo.