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RuPaul’s Drag Race – 8X10: Reunited [Season Finale]

Bob, Kim ou Naomi? O oitavo ano de RuPaul’s Drag Race escolhendo coroar o futuro

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Esse é o último texto sobre a oitava temporada da corrida, mas acho que vale a pena falar um pouco sobre como foi o sétimo ano. Quando ele veio, o programa estava cercado de uma expectativa e popularidade que tinha alcançado o verdadeiro apogeu. A competência da sexta temporada tinha aumentado a já imensa notoriedade do show nas redes sociais e o novo ciclo era uma grande promessa de marco para a história do programa. Havia sobre ele uma atmosfera de unanimidade que dava a continuidade do sucesso como certa.

Aí veio a bomba… Vou me permitir exagerar um pouco aqui porque Ru nos ensinou a esperar sempre o melhor. Claro que existe uma galera que não acha a sétima temporada tão ruim (principalmente os que começaram nela) e sempre compreenderei aqueles que dizem que mesmo o pior episódio do show ainda é melhor do que muito do que se vê por aí. Mas, de fato havia um problema de casting que se encontrou com desafios apáticos e que por isso, tiveram sua superficialidade agravada. Já na metade dessa oitava temporada era certo que algo tinha sido corrigido. Aliás, mais do que corrigido. O programa não se reencontrou apenas com as boas decisões de escalação, mas ambicionou uma meta específica. Esses anos todos vimos uma porção de drags experientes numa batalha constante contra as expressões contemporâneas do gênero, mas dessa vez não adiantaria espernear.

O oitavo ano foi aquele onde Ru resolveu assumir o que já vinha se desenhando de modo rudimentar no decorrer dos anos: só chega no final quem abraça os ensinamentos clássicos, sem nunca deixar de olhar para o futuro. O último programa da temporada abraçou a métrica inaugurada no ano anterior: menos tempo de tela para as outras participantes e mais exploração das finalistas. Esse tempo extra, no fim das contas, acabou sendo precioso, depois de uma absurda diminuição de QUATRO episódios na grade do ano.

O corte – dizem – tem a ver com a produção do All Stars 2, que tendo sido produzido após as filmagens da temporada regular, teria tido mais orçamento do que a malfadada primeira edição. Foi uma falta muito sentida… Ficamos sem três desafios, sem almoço com tic-tac (insistirei nisso FOREVER) e até sem Countdown To The Crown, que ninguém ligava muito para a existência, mas que era bom saber que estava ali. Abertas as cortinas do palco, todas as vencedoras surgiram dispostas exatamente como na premiere. Ru fez uma brincadeira com o palhaço que substituiu Bianca e manteve a tradição de ótimas aberturas de finales. Daí pra frente, tudo mais ou menos como sempre: as finalistas se apresentando, perguntas da audiência, depoimentos em vídeo e muitos elementos e bordões da temporada sendo salteados no decorrer dos blocos. Em termos de estrutura foi uma finale como todas as outras. A diferença sempre esteve no que as finalistas tinham a oferecer e esse ano, ainda bem, elas tinham muito.

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A torcida de Kim era muito grande… Me arrisco a dizer que era a maior delas. Era uma torcida que se apegava a dois grandes fatores: o talento visual de Kim e sua história pessoal complicada. Tão complicada que nem mesmo na finale chegou perto de ser resolvida. Kim teve uma trajetória linda, mostrou-se vulnerável acerca de questões realmente importantes para a audiência e para o crescimento dramático do show. O número preparado por ela para o espetáculo foi cuidadoso, o que não deixa de ser um pouco frustrante. Kim teve muitos meses para melhorar seu desfile e suas habilidades de dança, mas apareceu na finale com zero coreografia. Teria sido muito bom para ela mostrar maiores progressos. Mesmo assim, que delícia de letra a da canção que prepararam para ela. E totalmente dentro das provocações ao próprio modo segregativo do universo gay. Quando ela dublou em coreano eu quase morri.

Contudo, reconheço que se há uma menina que não precisa e talvez até nem deveria ceder a esse tipo de pressão, é Kim Chi. Seu papel no programa está numa esfera nova, inusitada, capaz de alcançar um Top 3 mesmo que devendo uma série de atributos clássicos de uma vencedora. Isso é extremamente inusitado para um programa que faz julgamentos que exigem versatilidade e competência em praticamente TUDO que propõe. Kim é um esplendor de talento, mas está longe de ser boa em uma série de aspectos. Ainda assim, existe um likeability e um impulso de afago para com ela que é diferente de tudo que já passou pelo show.

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Outra que é muito difícil não amar. Naomi foi a Adore Delano da temporada. Cresceu, amadureceu e se provou. Naomi sabe vender seu nome e isso já é muito para uma menina tão jovem. Sua presença em cena estava presente em tudo nessa finale: no seu número bem ensaiado, nos seus looks polidos e na sua tranquilidade. Há sobre ela uma perspectiva pessoal que também é muito nova pro show. A forma natural com a qual sua imensa família leva sua homossexualidade é tão importante para a audiência regular do show quanto nos casos onde há muita rejeição.

Apesar de tudo isso, Naomi era sem dúvida a vitória menos provável. De certa forma devia ser até um alívio para Ru que ela não fosse tão forte quanto Kim ou Bob , já que Violet já havia ganhado no ano anterior e era muito jovem também. Essa juventude (constantemente confundida com uma limitação), foi o que transformou a trajetória de Naomi numa trajetória que não foi segura desde o começo. Ela precisou de tempo para se reajustar. Se Violet tivesse ido parar numa temporada diferente da sétima (onde ela era a mais competente, sem dúvida), ela provavelmente seria como uma espécie de Naomi (não subestimando, nunca, o tamanho do talento que Violet tem).

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Ela ganhou vários desafios, arrasou no Snatch Game, brigou, ajudou, criou bordão e dominou praticamente todas as grandes movimentações da temporada. Mais importante ainda, Bob the Drag Queen sempre tinha o que dizer. E quando ela dizia, todos ouvíamos. Cheia de humor, sagacidade, tiradas irônicas, caretas, looks inesperados e uma necessária dose de vulnerabilidade, Bob preenchia praticamente todos os requisitos. Algumas de suas escolhas de passarela e principalmente sua maquiagem, eram questionáveis. Mas, essas rachaduras são importantes para aproximar as favoritas do público. Aquela que tem a segunda maior torcida da temporada, tem a primeira grandeza dentro do reino da Drag Race. As declarações políticas dela durante a temporada tornaram tudo ainda mais convergente. Além de ser uma participante competente, Bob também tem consciência social e experiência dentro dos sistemas políticos voltados para a luta dos direitos LGBT. Ela não será uma rainha figurativa e com toda sua ansiedade de verbalização e eloquência, pode se tornar uma ferramenta poderosa de defesa de todas essas minorias. Bob quer falar e Bob tem o que dizer.

O mais importante: Bob sabe como dizer. Embora não seja difícil encontrar fãs aborrecidos porque Kim não ganhou, uma reflexão prática deixa muito claro que Bob era a escolha mais sensata. Kim representa um universo de aspectos que precisam ser discutidos sobre a comunidade. Mas, é Bob quem tem condições para levar discussões adiante. Vencer não é só sobre look, mas tampouco é só sobre verbo. Bob fica na frente porque em torno de seu verbo afiado, está uma drag com apelo visual e espírito transgressor. Sua vitória é importantíssima em muitos aspectos, já que ela é negra, ativista, artista conceitual e cria do programa. É como se a existência da Drag Race tivesse parido uma filha perfeita, que absorvera o melhor dessa trajetória e estava disposta a repartir tudo com a comunidade. RuPaul não podia perder isso… Por fim, quando colocamos tudo isso em perspectiva, fica muito clara a ideia de contemporaneidade que passou a permear o show de uns tempos para cá.

Todas as finalistas desse ano tinham a possibilidade de estabelecer um diálogo importante com a audiência e com todas as plateias por onde passassem. Claro que não estou falando de envolver a corrida com invólucros políticos. Nem é isso que Ru provavelmente quer. A questão não é só do que se tem a dizer, mas de tê-lo e dizê-lo entre belos panoramas visuais. A corrida jamais deve perder seu flerte com o amadorismo, com o pastelão. Mas, tampouco deve evitar a erudição de um discurso social legítimo. Essa peculiar junção de impressões é que sempre foi o seu forte. Em Outubro a nova edição do All Stars vai matar um pouco a nossa saudade do universo da corrida. Até lá, vamos aguardar cheios do nosso orgulho restabelecido. A oitava temporada foi um desbunde de competência e diversão… Can I get an amem?

Purse First: Bianca muito bonita no look da foto, pouco usual pra ela. E o tempo de humor ainda perfeito, só os olhares dela pro palhaço eram de matar.

Purse Second: Derrick com uma maquiagem ótima no desfile. Ela fez uma entrevista maravilhosa, falou com sensatez sobre os erros, os exageros e a evolução natural de alguém que foi lá para aprender sobre originalidade. Simpatizo muito com Derrick.

Purse Third: Quem era o Avatar na plateia?

Purse Fourth: Todas as canções preparadas para as finalistas eram muito bem produzidas (beijo, Lucian), mas a de Bob era deliciosa.

Purse Fifth: Carol Channing falando para Bob me fez chorar igual criancinha.

Purse Sixth: Como tem ursos lindos na plateia da finale. Sempre. E é uma loucura pensar naquele lugar lotado de gays, drags e trans, celebrando alegria e liberdade.

Purse Seventh: Kim gongando o Pit Crew, hahahahahah.

Purse Eigth: Lena Headey mandando recado pra Naomi foi DE MORRER. E tenho um novo bordão #CerseyThatWalk.

Purse Ninth: Os irmãos e irmãs de Naomi, todos loirinhos… Coisa linda vê-los junto dela.

Purse Tenth: Cinthya revelou para uma plateia chocada que Acid Betty foi quem mais esteve ao seu lado no período de luta contra o câncer. Foi bom pra acalmar os ânimos e sublinhar que Betty tem coração.

Purse Eleventh: Naysha também iria usar um maldito kimono. Raja apareceu no desfile da campeãs vestida com uma Madonna que deixou a oitava temporada inteira no saco.

Purse Twelfth: Thorgy tocando violino foi lindo, mas ODEIO aquele look de Emília Feat Female Hulk.

Purse Thirteenth: Katya SEMPRE é garantia de diversão. Uma linda.

Purse Fourteenth: E o que foi o look de Violet?? Meu Deus do céu, aquilo foi de perder o ar. E, para quem não sabe, são gravados três resultados diferentes para a finale e até as finalistas só ficam sabendo quem venceu no momento da exibição. Abaixo, o vídeo que mostra a reação de Bob ao ver que ela foi a vencedora. Lindo!


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| Review, Rupaul's Drag Race

  • Juliano Santanna

    Cara, acompanho suas reviews de Drag Race, e tenho de dizer, trabalho impecável esse que você faz. Suas análises, constatações e conclusões me inspiram sempre a olhar com outros olhos sobre o impacto desse programa na sociedade, e agradeço você por ser uma pessoa tão competente para mostrar isso. Por favor continue escrevendo porque estarei acompanhando. Thank You.

  • Juliano Santanna

    Cara, acompanho suas reviews de Drag Race, e tenho de dizer, trabalho impecável esse que você faz. Suas análises, constatações e conclusões me inspiram sempre a olhar com outros olhos sobre o impacto desse programa na sociedade, e agradeço você por ser uma pessoa tão competente para mostrar isso. Por favor continue escrevendo porque estarei acompanhando. Thank You.