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Zurich Film Festival – Tapete verde e muito cinema

O festival do tapete verde e suas particularidades

alexander-skarsgard

Cannes, Sundance e Berlinale são festivais tradicionais de cinema que arrastam cinéfilos do mundo todo, mas você já ouviu falar dos festivais de cinema na Suíça? O festival de Locarno, na parte italiana do país, é bem popular pela Europa. O Zurich Film Festival (ZFF) tem despertado o interesse da imprensa européia e aos poucos a curiosidade da imprensa mundial. Levando em consideração que Zurique tem uma população com pouco mais de 380 mil habitantes, o festival é até bem grande. Com orçamento de 7,2 milhões de francos, o Zurich Film Festival exibe em 11 dias, de 22 de setembro a 02 de outubro, 172 produções e recebe uma média de 85 mil visitantes por ano. Sem falar nas estrelas que desfilam pelo Green Carpet.

O evento não possui o tradicional tapete vermelho desde a 6ª edição, em 2010, quando optou, junto à organização sem fins-lucrativos my climate, por um tapete verde. Desde então, o ZFF mantém um projeto de proteção ao meio-ambiente em Bali. O festival, que em 2016 chega à sua 12ª edição, tem engrenado e atraído muitos turistas europeus. O ZFF agita a cidade com a exibição dos filmes, claro, e com alguns eventos como ZFF Talk e ZFF Master, nos quais é possível adquirir um ingresso para uma entrevista/debate com filmmakers, atores e profissionais da sétima arte.

O festival possui três mostras competitivas. São 14 produções internacionais na categoria ficção, 12 filmes na categoria documentário e 12 na mostra Fokus: Suiça, Alemanha e Austria (filmes produzidos em um dos três países).

Neste ano o festival tem 17 estreias mundiais e por esse motivo passaram pelo Green Carpet personalidades como o diretor Oliver Stone acompanhado de Joseph Gordon-Levitt e Shailene Woodley, Alexander Skarsgard, Ewan McGregor que debuta como diretor, Woody Harrelson, Daniel Radcliffe e Uma Turman que foi convidada para um debate, na categoria exibição especial, sobre Kill Bill.

Todo festival que se preze tem um convidado de honra e o deste ano é o ator britânico Hugh Grant, que fez a estreia européia de Florence Foster Jenkins em Zurique e participou de uma conversa com os espectadores após o filme.

O festival apresenta também as mostras paralelas Windows: San Sebastian e Windows: Hong Kong, com filmes dos respectivos festivais e uma mostra dedicada ao cinema mexicano que, embora tenha uma produção cinematográfica efervescente, quase não possui oportunidade de exibição em salas européias de cinema. Ainda nesta edição foi possível assistir a mostra Retro: Olivier Assayas, que também recebe o Golden Eye pela sua obra como diretor e a mostra Retro: Marcel Hoehn, com os filmes do produtor suíço.

Filmes que foram exibidos no 12 Zurich Film Festival

Magnus – Competição Documentário
Benjamin Ree
Noruega, 2016

Magnus Carlson é campeão mundial de xadrez e uma das cem pessoas mais influentes no mundo, segundo a revista Times. O documentário traz cenas do introspectivo Carlson durante a infância com vídeos em família e o interesse desde cedo pelo jogo de xadrez, além de sua dificuldade em realizar tarefas físicas quando criança. A narrativa é cheia de nuances e consegue capturar o desenvolvimento da personalidade do norueguês. A montagem do filme faz com que o espectador se interesse pela narrativa, mas com distanciamento. O objetivo de Magnus é claro, ser campeão mundial de xadrez, mas mesmo em suas frustrações ou perdas o documentário não faz com que a gente sofra com suas derrotas e nem que vibre com suas vitórias. É deliciosamente interessante perceber o stress e a pressão sofrida por Magnus durante as partidas, e, por vezes, a dificuldade em lidar com as câmeras e como a família apoia o jogador. Não é o filme que faz a gente sair do cinema querendo ser campeão mundial de xadrez, mas é inspirador.

Skizze von Lou/ Sketch of Lou – Fokus: Suiça, Alemanha e Austria – Competição Ficção
Lisa Blatter
Suiça, 2016

Lou é uma suíça que conhece o albanês Aro. Os dois iniciam um relacionamento amoroso e ponto. Drama! É um filme de atmosfera, não tem diálogos e frases que marcam, não é pretencioso, de um simplicidade que demora para encantar, mas passa sua mensagem. As cenas são limpas, a cenografia clara, os silêncios estão presentes, mas cheios de significados. Sketch of Lou é um filme sobre relacionamentos e a dificuldade de se entregar ao outro, mas não é carregado de emoções à flor da pele e jamais poderia ter sido filmado em outro país senão na Suíça. Explico. É tudo certinho: – a luz, o cenário, a atuação, a trilha sonora, a ausência dela e até a nudez. Não é um longa visceral, mas também não é esse o objetivo. A bela fotografia, as imagens de natureza e ausência de melodrama surpreendem.

Tamara y Catarina – Competição Ficção
Lucía Carreras
Mexico, 2016

Tamara sofre de atraso cognitivo, ama joaninhas, trabalha numa confeitaria e vive com seu irmão que logo nas primeiras cenas parte para um lugar desconhecido. Tamara não possui dinheiro para se alimentar e vive situações limite. A história piora quando ela encontra um bebê na rua e decide levar para casa. A interpretação de Angeles Cruz e a repetição de diálogos seduzem e passamos a sofrer com a protagonista. A complexidade dos personagens e o desenrolar da história causam um misto de irritação e compaixão que só tornam o filme, a cada minuto, mais atraente.

Aquarius – Competição Ficção
Kleber Mendonça Filho
Brasil, 2016

É um filme sobre o memórias, lembranças e relacionamentos. A direção corajosa e assertiva de Kleber Mendonça Filho é de encher os olhos. Sonia Braga nos presenteia com uma interpretação magnífica e a cada dez minutos surge um tema que coloca o dedo na ferida. Nada escapa: racismo, homofobia, prostituição, sexo na terceira idade e, claro, corrupção. Aquarius é um brinde da sanidade contra a loucura.

Nocturama – Premiere
Bertrand Bonello
França, 2016

Uma manhã em Paris e alguns jovens planejam algo através de movimentos e gestos suspeitos entre os labirintos da cidade luz. A gente precisa de um pouco de tempo para se adaptar ao filme. Nocturama é provocante, cheio de acontecimentos e os perfis psicológicos dos personagens são estranhamente muito bem construídos. Nos apegamos aos jovens e nos emocionamos com os acontecimentos, mas o desfecho da história é óbvio. Bertrand Bonello parece ter se inspirado na câmera do filme Elephante (2003) de Gus Van Sant. Preste atenção na ótima trilha sonora eletrônica.

Welcome to Norway – Competição Ficção
Rune Denstad Langlo
Noruega, 2016

Primus tenta transformar o hotel falido da família em um centro para refugiados. Seu objetivo não é ajudar os exilados, mas levantar dinheiro para quitar as dívidas. A comédia dá leveza ao tema da crise imigratória na Europa. O filme produzido com o baixo orçamento de menos de R$ 8 milhões surpreende. A interpretação de Olivier Malaka, Abedi, torna o filme, por vezes, emocional sem ser caricato.

All these sleepness nights – Competição Documentário
Michał Marczak
Polônia, 2016

Os jovens Kris e Michael buscam sentido e autoconhecimento através das festas de música eletrônica sem hora para terminar. O filme fica na linha tênue que separa documentário de ficção. A câmera frenética, a música e os diálogos nos colocam frente à humanidade dos protagonistas. É interessante notar como a poesia no documetário é conduzida pelo diretor através desse período entre a juventude e a idade adulta.

Florence Foster Jenkins
Stephen Frears
UK, 2016

A vida da milionária, e considerada a pior cantora da história, não é totalmente desconhecida dos brasileiwros. A diva Marília Pêra deu vida a Florence Foster na comédia musical ‘Gloriosa’. Hugh Grant, Meryl Streep e Simon Helberg formam um trio que nos levam às gargalhadas sem perder a dramaticidade. Meryl nos seduz com a excentricidade de Foster, Hugh assume riscos numa interpretação contundente e Simon rouba algumas cenas e nos leva aos risos.

Weiner – Competição Documentário
Josh Kriegman, Elyse Steinberg
EUA, 2016

Na corrida eleitoral de 2013 para a prefeitura de Nova Iorque, Anthony Weiner era um dos favoritos. Pouco menos de dois anos antes, o candidato se envolveu num escândalo sexual. Na campanha de 2013 tudo ocorre bem até que um novo escândalo surge. O documentário mostra os bastidores da campanha de Anthony e sua vida privada. No decorrer do filme nossa atenção fica voltada para Huma, esposa de Weiner, uma peça fundamental na campanha presidencial de Hillary Clinton.

Europe, she loves – Competição Documentário
Jan Gassmann
Schweiz, 2016

O diretor suíço viajou pela Europa para filmar a privacidade e o dia-a-dia de quatros casais. O documentario surpreende pela beleza das imagens e, muitas vezes, cria a sensação de filme de ficção devido a desenvoltura dos casais em frentes às câmeras. Os dilemas, problemas e momentos felizes criam a atmosfera dessas relações, por vezes caóticas, e dão ritmo e sentido para as cenas.

Plaza de la Soledad – Mostra México
Maya Goded
México, 2016

Ao redor da Plaza de la Soledad – lugar conhecido pela criminalidade e prostituição, a renomada fotógrafa Maya Goded entrevista e conta a história de mulheres mais velhas que trabalham como prostitutas há décadas. O filme intimista permite fazer um mergulho na vida dessas mulheres e tenta explicar suas personalidades, angústias e desejos. A escolha dessas mulheres-personagens se deu ao longo de quase 20 anos. Vale à pena assistir!

Bacalaureat / Graduation – Premiere
Cristian Mungiu
Romênia, 2016

Depois do término da ditadura comunista de Ceuausescus, na Romênia, o médico Romeo volta da Transilvânia com sua mulher na tentativa de recomeçar sem sofrer com a corrupção. Tudo que eles precisam é que sua filha atinja uma nota para ingressar numa universidade da Inglaterra. Vencedor do prêmio de melhor diretor em Cannes, o filme narra uma série de acontecimentos que nos faz refletir sobre corrupção, privilégios e mentiras. É formidável assistir ao médico Romeo e as histórias que ele se envolve para atingir o seu objetivo.

Imperium – Premiere
Daniel Ragussis
EUA, 2016

Nate Foster é um agente do FBI jovem e idealista e sua competência não passa despercebida por sua superior Angela, que o coloca numa tarefa arriscada: se infiltrar num grupo de neonazistas que planejam um bombardeio para estabelecer a supremacia branca. O diretor Daniel Ragussis mantém o clima de tensão durante todo o filme com cenas de perseguição, diálogos rápidos, mas o ponto alto é a atuação de Daniel Radcliffe.

Veja quem passou pelo Green Carpet:

por Humberto Gollabeh

ZFF 72

O Festival promove um concurso aberto ao público com o objetivo de produzir um filme de 72 segundos em 72 horas. O tema deste ano foi Água. O ganhador pela votação do público recebe 4 mil Francos. O filme escolhido pelos Jurados do Festival levam 5 mil Francos.

Ganhadores de 2016: Hyperhydrose von Marco von Moos (Jurados) e Lágrimas de Isra de Tim Vogt (votação do público).

Hyperhydrose



Lágrimas de Isra

 

Ganhadores do 12° zurich Film Festival

Melhor filme de ficção: The happiest day in the Life of Olli Mäki, de Juho Kuosmanen, Finlândia.

Melhor Documentário: Mrs. B, a North Corean Woman, de Jero Yun, Coréi do Sul.

Melhor filme Fokus: Suíça, Alemanha e Austria: Stille Reserven de Valentin Hiltz, Austria.

Melhor filme pelo público: When two words collide, de Heidi Brandenburg e Mathew Orzel, Peru.

Melhor produção suíça: Europe, she loves, de Jan Gassmann.

Melhor filme segundo a crítica: Lady Macbeth, de William Oldroyd, Inglaterra.

Melhor filme infantil: Ma vie de Courgette, de Claude Barras, Suíça.

Melhor filme infantil pelo público: Code M, Dennis Bots, Holanda.

 

* Fotos: Humberto Gollabeh


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